11 Novembro 2015      11:51

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QUEM COMEÇOU A GUERRA?

A Iª Grande Guerra terminou há exatamente 97 anos, a 11 de novembro de 1918, o Dia do Armistício quando se iniciou o cessar-fogo e que viria a ser ratificado, posteriormente, no Tratado de Versalhes a 28 de junho de 1919 –e que acabaria por marcar também o início das Nações Unidas.

O conflito, esse, tinha-se iniciado a 28 de julho de 1914 e teve como palco principal a Europa, envolvendo grandes potencias mundiais divididas em dois grandes blocos: os Aliados – que tiveram por base a Tríplice Entente entre Reino Unido, França e o Império Russo-  e os Impérios Centrais europeus - Império Alemão, Austro-Húngaro e Itália (apesar de esta última acabar por não entrar na Guerra e de vir, mais tarde, a aliar-se no bloco oposto).

Portugal também esteve nesta guerra, tomando parte pelos Aliados, pois esta guerra teria um impacto enorme no império colonial português e na manutenção e garante na recém- criada República.

E, deste modo, a 7 de agosto de 1914, Bernardino Machado, presidente do Ministério, submeteu ao Congresso da República uma declaração de princípios sobre a condução da política externa portuguesa, já pressionada por alianças históricas com Inglaterra e assim Portugal entraria em Guerra em dois continente: África – nas colónias Angola e Moçambique – e Europa – essencialmente na Flandres e na França.

Com um contingente de cerca de 100 mil homens, formado em três meses, estes seriam divididos em dois grupos: um que apoiaria o exército britânico e outro o francês; muitos soldados portugueses despareceram, muitos morreram; sobretudo na Batalha de La Lys – também conhecida como Quarta Batalha de Ypres ou a Batalha de Estaires – uma ofensiva das tropas alemãs na Flandres e que durou 20 dias em abril de 1918.

Aí a segunda divisão portuguesa, comandada pelo General Gomes da Costa – que viria a ser Presidente da República - com cerca de 20 000 homens, perdeu cerca de 300 oficiais e 7 000 homens face aos 50 000 alemães.

Relatos desta guerra contam que terá sido um dos maiores bombardeamentos até então e, em poucas horas, cerca de 7500 homens perderam a vida nesta batalha. 

“… Ao atravessar os campos as granadas caíam aos milhares! Alevantavam o chão todo! A terra fervia em cachão! (…) As aldeias ardiam como archotes alumiando a noite! (…) Lembrava o Inferno, a terra toda a arder!”  (Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Vol. I, p. 225, Portugália Editora, Lisboa, 1969)

 

Alguns dos portugueses sobreviventes portugueses desfilam numa marcha, em Paris, e que assinalava o fim da Guerra.

 

Estima-se que esta guerra tenha envolvido cerca de 70 milhões de militares, tendo perdido a vida cerca de 9 milhões de combatentes, o que transformou esta guerra no sexto conflito mais mortal da História da Humanidade e que acabou por ter enormes implicações e revoluções políticas em muitos países.

É comum dizer-se que esta guerra se iniciou com o assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, e é verdade.

O que não se conta é que tudo acabou por acontecer por acaso, devido a casualidades que lhe contamos já de seguida.

Foram dois tiros disparados por Gavrilo Princip, numa esquina de Sarajevo, sobre o arquiduque Francisco Fernando, que resultaram na Primeira Guerra Mundial, o que, por si só, parece excessivo se dissermos que daria início à Primeira Guerra Mundial.

No entanto, parecerá tudo ainda estranho quando analisamos todas as coincidências e causalidades que levaram a este assassinato.

 

O Arquiduque Francisco Fernando e a sua mulher Sofia, duquesa de Hohenberg, horas antes do assassinato.

 

Segundo Tim Butcher, escritor de viagens britânico, citado por Guillermo Altares em artigo do “El País”, e que editou o ensaio “Princip, The trigger. Hunting the assassin who brought the world to war” (Princip, o gatilho – a caça ao assassino que trouxe a Guerra mundial), Princip era um zé-ninguém. Ainda assim, e de acordo com a maioria dos historiadores, por ter assassinado o Arquiduque Francisco Fernando, foi ele o grande responsável pela Primeira Grande Guerra e das catástrofes que se lhe seguiram no séc. XX.

Princip, um sérvio da Bósnia, tinha 19 anos e apesar de ser um atirador sem experiência, acabou por matar a esposa e o herdeiro do Império Austro-húngaro, do qual a Bósnia fazia parte, depois de os ter encontrado por acaso, numa esquina de Sarajevo. Exato, leu bem, nem o atirador, nem a família real era suposto estarem àquela hora, naquele local em frente à pastelaria “Moritz Schiller” (agora museu). E foi assim que se deram dois tiros que mudariam a face do mundo.

O escritor bósnio Velibor Colic disse que “ o atentado de Sarajevo foi acontecimento de consequências mundiais, uma espécie de ponto zero. (…) Foi um “complot” muito bem organizado, mas também muito caótico, e o acaso teve o papel principal. (…) Foi uma “vaudeville”, uma tragicomédia, cujas consequências, infelizmente, todos conhecemos.” E em complemento, Butcher assegura que o improvável protagonista do assassinato não deixou descendência por ter morrido muito jovem. A sua ascendência era extremamente pobre, seriam servos. Seis dos seus irmãos morreram e cem anos depois, segundo Butcher, os seus familiares ainda continuam a falar de pobreza.

Diz a lenda que o assassino estava a comer uma sandes, mas, como tantas outras informações, não está confirmado, pois, com a guerra perderam-se inúmeros documentos e registos históricos. O que se sabe com certeza é que formava parte de um “complot” para matar o arquiduque, e que esse “complot” já havia falhado um atentado à bomba naquele mesmo dia e que três, dos sete jovens terroristas, se recusaram a utilizar as bombas e as pistolas que levavam. Por acaso, depois do referido, Princip e a comitiva real cruzaram-se e o assassinato foi cometido.

Contra a lógica e o bom senso, apesar de ter sofrido um atentado falhado quando a bomba atirada não acertou no carro onde seguia, Francisco Fernando decidiu continuar a visita a Sarajevo com normalidade. O atentado não fora casual e a sua interpretação era fácil: decorria a 28 de junho, celebrava-se o dia de S. Vito, o dia da nacionalidade na Sérvia, celebração levada a efeito após terem perdido a independência para os turcos, em 1389.

A também escritora de viagens Rebecca West, autora de um grande livro sobre os balcãs, ”Black Lamb and Grey Falcon” (Cordeiro negro e falcão cinzento), nos anos 30 afirmou que, e após entrevistar algumas testemunhas do assassinato, ninguém teria tido tanto culpa nos acontecimentos como o próprio arquiduque.

Após a receção na Câmara Municipal o governador da Bósnia, Oskar Potiorek, convenceu o arquiduque a encurtar e alterar o itinerário, evitando o centro de Sarajevo, mas esqueceram-se de avisar o motorista. Ao aperceberem-se, já a meio caminho, tiveram que empurrar o carro à mão, pois não tinha marcha atrás. Essa paragem aconteceu em frente à pastelaria Moritz Schiller, mas podia ter acontecido em qualquer outro ponto do itinerário. Era precisamente ali que estava Princip que, enquanto comia uma sandes, viu surgir uma oportunidade clara para concretizar a missão que lhe dera uma organização nacionalista e misteriosa de Belgrado, a “Mão-Negra”, estando ainda por aferir o grau de participação do governo sérvio nesta organização. A princesa morreu de imediato e o arquiduque meia hora depois, às 11 da manhã de há cem anos. Trinta e sete dias depois começava a 1ª Guerra Mundial.

Gavrilo Princip é preso momentos depois do assassinato.

 

O historiador Christopher Clark, autor de “The Sleepwalkers” (Sonâmbulos), um dos mais influentes e conceituados ensaios publicados neste ano de centenário, insiste nas aparências casuais do assassinato e, face à transformação mundial que dali surgiu (o desaparecimento de quatro impérios, a revolução russa, a reorganização das fronteiras mundiais e o nascimento do fascismo e do nazismo, a 2ª Guerra Mundial, o Holocausto etc.) levanta a questão: e se Gavrilo Princip tivesse falhado? O que se sabe é que Francisco Fernando, sendo pacifista e contra as guerras, a poderia ter evitado.

Contudo o já citado Butcher, que passou anos a viajar pela Bósnia e investigar a figura de Princip em busca de informações, tem uma visão um pouco diferente. Na sua opinião, apesar de reconhecer e apoiar a casualidade do assassinato, acha que mesmo que Francisco Fernando não tivesse sido assassinado, a guerra teria tido lugar de igual modo. Butcher coloca o jovem bósnio Princip como o representante principal da mudança no séc. XX: a era dos jovens, a era dos que não tinham voz, e que ali a começaram a ganhar, incutidos pelo espírito do forte nacionalismo crescente que marcava a época (Irlanda, Palestina e futura Jugoslávia são alguns exemplos). Enquadrando os acontecimentos de 28 de junho de 1914 como um ato nacionalista revolucionário dos povos eslavos; enquadrando-o com as revoluções europeias de 1848, a Comuna de Paris em 1870, a revolta dos jovens turcos em 1908, entre outros, o assassinato pode ter sido casual, mas a guerra seria já inevitável naquele dia.

 

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