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O copo meio cheio

Estanislau era um tipo muito calmo. Excessivamente comedido por vezes, diziam aqueles que o conheciam. Eu próprio não o conhecia. Tinha ouvido falar dele há uns tempos, através de conhecidos, mas nunca tinha tido um contacto próximo com a pessoa em causa.

Em dias pares, diziam as más-línguas, Estanislau tinha mau feitio. Nesses dias, não havia vivalma na aldeia que chegasse perto de si e lhe transmitisse os anseios, as ideias, as coisas que não se podiam dizer na praça do município.

Azulejos

Enchi a sacola com pedras que fui apanhando no meu percurso e pedaços de argila junto a um ribeiro que enchi com as minhas lágrimas derramadas, tantas vezes por coisas sem importância ou sentido. Não eram tantas lágrimas que pudessem encher esse ribeiro, mas na sua mistura com as lágrimas de outros que por lá passaram e outros ainda que passarão, as lágrimas transformaram o Ribeirão num mar, devido ao sal nelas contido.

A argila misturou-se com as pedras que já se encontravam no saco que, aos ombros, carregava com dor.

O meu professor de literatura

Já tinha ouvido falar do Clube dos Poetas Mortos, visto o filme, e até ficado impressionado com o seu conteúdo, com aquilo que aquele professor despertara na turma de alunos, uns demasiado concentrados em cumprir as regras, outros absolutamente desinteressados e outros até que estavam só como figurantes.

Todos sabemos que a realidade não é assim e que aquilo que vemos no cinema ou lemos nos livros, tantas vezes não correspondem a uma realidade que não é a nossa.

A torre da igreja

Caiu a torre da igreja! Caiu a torre da igreja e é mau presságio! Caiu a torre da igreja e nesta terra ninguém mais se vai levantar, ninguém mais vai acompanhar as horas e o cronometrar dos tempos. Gritava a mulher idosa em frente aos escombros daquela igreja com duas torres. Assustada, vestida de negro pelos pesos e as mortes todas que tinha já carregado na sua vida. O luto acompanhava-a já há pelo menos mais de um quarto de século.

O castiçal

Parecia que tinha sido um palácio outrora, há muitos anos atrás, quando as princesas vestiam vestidos longos que tapavam os tornozelos e os decotes eram mais exuberantes do que são hoje em dia.

Parecia que aquele palácio fazia parte de um conto de fadas, de uma história de era uma vez que nunca posicionava a história no tempo cronológico certo, mas havia sempre alguém que sabia o desfecho.

O sorriso independente

Vivia nos lábios de uma pessoa que não sabia sorrir. Nunca tinha usado os lábios para sorrir na sua vida nem sabia o que era isso. Os seus lábios viviam só de amargura e de tristeza. Er usados apenas para se queixar da vida, de coisas que o atormentavam e faziam sentir cada vez mais velho. Ao passar de cada dia, as rugas que o envelheciam, rodeavam ferozmente os lábios e tornavam-nos parte de um conjunto triste e amargo. A pessoa onde os lábios habitavam era uma pessoa que dificilmente conseguiria sorrir.

A ameixa

Nascida de uma pequena semente, caroço de uma saborosa ameixa, plantada por um homem de idade avançada, com esperança que os filhos e os netos dela fizessem uso, a ameixeira passou de semente a rebento. Assim

Foi crescendo e crescendo e crescendo. Todas as estações passar por ela. A pequena ameixeira. Não sei se ela tinha noção que era ameixeira e que cresceria, e cresceria, e um dia daria flores, e das flores nasceriam frutos, que seriam comidos por pássaros ou por humanos e que deles sairiam novas sementes e essas sementes dariam novas ameixeiras.

O calor e o sentido da vida

O calor destes últimos dias, em pontos transversais do globo tem marcado os nossos noticiários. Principalmente no hemisfério norte, dezenas de canais televisivos somam aberturas de noticiários sobre as elevadas temperaturas, sobre os calores intensos que se fazem sentir, exacerbando a níveis preocupantes os efeitos nefastos das secas que a falta de chuva, aliada a elevadas temperaturas, tem causado.

Televisão a cores

Eram mais de 12 os irmãos que habitavam naquela casa. Todos filhos do mesmo pai e da mesma mãe, tinham intervalos de idades muito semelhantes entre si. As diferenças eram de um ano cada, mais coisa, menos coisa. O mais velho tinha já ido à tropa e trabalhava agora nas minas, junto com o pai e com um dos outros irmãos que não tinha idade ainda para ir à tropa mas tinha já bom corpo para trabalhar.

O peixe da ribeira

Qual é a diferença que existe entre nós? Como podemos marcar a diferença entre o que é igual? Qual a possibilidade de algo absolutamente idêntico ser diferente? Serão os pequenos pormenores da similitude a acentuar a grandeza da pequena diferença?

A água não passa duas vezes pelo mesmo

lugar. Estou certo que já ouviram antes esta ideia. É possível que discordemos pois com os aquários e aquelas inovações que criam fontes e riachos fictícios, as realidades e as verdades absolutas neste âmbito tendem a adaptar-se.

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