7 Janeiro 2017      10:58

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O TALEIGO

"PARALELO 39N"

ta·lei·go 

(árabe ta'lîqa, saco, bolsa)
 

substantivo masculino

1. Saco longo e estreito.

2. Cesto ou saco para transportar comida.

"taleigos", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/taleigos [consultado em 05-01-2017].

 

Martins levantava-se antes do próprio Sol. Homem que falava pelos cotovelos depois da hora do almoço, até ao meio dia não dizia uma palavra. Não abria a boca a não ser para acender um cigarro e ir queimando a mortalha. Dos seus lábios saía o cuspo dos restos das folhas de tabaco que ficavam atrás. Era ele próprio que enrolava os cigarros. Comprava na tasca do povo uma remessa de onças de marca Águia e um livro de papel de mortalhas preto. E assim, ia passando o tempo, enrolando um cigarro, preparando-se para o nascer do Sol. Vendo o Sol subir nos céus e esperando que chegasse a hora do meio-dia e do almoço que transportava consigo.

Martins tinha a pele escura do calor dos dias que passavam mais longos nesta altura do ano. Na cabeça usava um chapéu preto também ele consumido pelo calor. Em algumas partes, o preto tinha-se transformado em cinza e notava-se em todo ele a passagem do tempo que não afetava só as roupas mas também todos os seres que habitavam o espaço que rodeava o Martins.

Viúvo, tinha-se desleixado após a morte da mulher.

Passara-se muito tempo, 10 anos na contagem dos homens, mas não havia um único dia em que não se lembrasse da mulher nem dos tempos em que ambos partilhavam a albarda da mula e iam para as ladeiras ceifar o trigo e arranjar alimento para o inverno. Viúvo, nunca mostrata interesse em casar de novo. Muito embora os primos o tentassem convencer a casar outra vez, Martins não se interessava por isso. Claro que seria bom ter uma companhia e passar as noites de inverno com os pés aquecidos na cama. Ter alguém que lhe fizesse a comida, um jantar de feijão ou de couve quente, feito no lume, acompanhado com uns nacos de carne da manteiga e pão cozido no forno velhinho que estava ao lado da casa.

Fazia isso tudo sozinho, mas custava-lhe. Custava-lhe cada vez mais e custava-lhe sempre que se lembrava da forma como a mulher partira. Durante anos entrevada na cama, recebera sempre o carinho de Martins, todos os dias. Nessa altura, levantava-se ele sempre muito mais cedo do que o Sol. Nessa altura fazia ele as refeições para os dois. Nessa altura, quando saía na mula para as ladeiras onde o esperavam.

No dia em que partiu, antes de Martins sair na mula e acompanhado pelo fiel cão, escanzelado não pela falta de alimento, mas pelos parasitas que o consumiam, antes de o próprio Sol ser testemunha dos acontecimentos, a mulher disse-lhe que não se esquecesse do taleigo cujo conteúdo preparara na noite anterior. Martins acenou com a cabeça, em gesto de quem compreendera, aceitara e cumpriria. Não disse uma palavra pois Martins não falava nunca antes do meio-dia.

Ajeitou as mantas à mulher e encostou a porta. A cunhada viria poucas horas depois servir-lhe o almoço, tratar da higiene diária e fazer companhia à irmã acamada. Nessas horas distante, Martins passaria na ceifa, acompanhado pela mula e pelo cão que se acomodavam debaixo de uma azinheira, enquanto o homem ceifava, fazia os molhos e juntava-os até por as cangas no animal e transportar o trigo desse dia, juntando-o ao restante que esperaria a debulhadora chegar ao monte.

Ao meio-dia, quando o Sol lhe fez sinal e lhe estreitou a sombra, Martins sentou-se debaixo da mesma azinheira onde estava o cão e a mula e, depois de dar a ração ao animal maior, abriu o taleigo que fora costurado pela mulher e tirou lá de dentro uma marmita com carne da manteiga, pedaços de chouriço e uma tira de toucinho. No fundo do taleigo, metade de um pão com oito dias, uma marmita de azeitonas, um tomate, sal e uma garrafa de tinto caseiro. O homem comeu, deu metade ao cão que o olhava com olhos de quem ansiava mas sabia esperar.

E nisto, ouviu um grito do monte que o pôs em sentido e o fez largar tudo. A cunhada gritava-lhe, desesperada, pedidos de ajuda, chamava o seu nome e anunciava-lhe a notícia que esperava, nunca a esperando. Martins saltou do sítio onde estava sentado, o cão ladrava e acompanhava-o e, em passo apressado, levando a mula pela arreata, correu para o monte.

Atrás, ficava o taleigo, vazio, ao lado da comida que as moscas e as formigas começavam agora a cercar. 

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