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José Carlos Adão

Junho

O mês de junho marcou a diferença na vida de Eloísa. Os primeiros dias do mês foram a continuação do sonho que tinha começado em maio. Aquela mulher estava apaixonada por aquele multi-milionário modelo. Ficaram juntos no melhor hotel do Funchal, percorreram todos os recantos e conheceram todos os encantos da ilha da Madeira e do Porto Santo. Era mesmo, na verdadeira acepção, um sonho. Eloísa sentia-se parte do corpo de Pablo e o mesmo da parte dele.

Maio

No dia 3 de maio, após a troca contínua de mensagens e vídeos e vídeo-chamadas por instagram, este era o dia em que Pablo chegaria à Madeira. Este era o dia em que Eloísa finalmente conheceria o seu grande amor, ou paixão, digamos assim.

Abril

Foi nos primeiros dias de abril que os colegas de Eloísa tiveram conhecimento do que lhe sucedera. As notícias chegaram através da internet, e deixaram todos os que a conheciam impávidos. Eloísa deixara-se apaixonar e fugira com aquele que pensava que seria o seu grande amor.

Tinham-se conhecido no instagram. Como? Eloísa seguia este homem que partilhava fotos fantásticas de uma vida paradisíaca numa ilha das Caraíbas. O seu nome era Pablo e as suas idas diárias ao ginásio davam-lhe um corpo pelo qual qualquer mulher e não só se interessavam e cobiçavam.

Março

Os primeiros dias do mês passaram-se calmamente. Apesar de as noites ainda parecerem de inverno, os dias eram maioritariamente cheios de sol, com algumas nuvens à mistura, tanto em Beja como na Madeira. Nesta última, o tempo esteve mais quente.

A segunda semana do mês foi atípica e os campos ficaram ensopados com a quantidade de chuva que caiu. As barragens ficaram cheias e as primeiras sementeiras estavam a ser planeadas. Lá para meio do mês a primavera chegaria, sem timidez. As primeiras flores iam aparecer e tudo voltaria a nascer. O ciclo da vida assim o determinava.

Fevereiro

No início do mês de fevereiro, a mesa do almoço estava posta como sempre. Dois lugares, embora só um deles se ocupasse, todos os dias. Naquele pequeno apartamento da Rua de Moçambique, em Beja, a mesa era posta de modo a que duas pessoas se sentassem frente a frente e conversassem durante o almoço ou o jantar. O pequeno-almoço era tomado na cozinha mas tinha também dois pratos e duas chávenas. Uma delas permanecia sempre intocada, era semanalmente lavada e estava ali. Parada mas certa de ter alguma utilidade.

Janeiro

O ano começara no dia um, precisamente às zero horas. A festa tinha sido de arromba para todos, exceto para aquela mulher que se esvaía em sangue no quarto de um hotel a muitos quilómetros de casa. Podia ainda ouvir lá fora o fogo de artifício e as festividades, enquanto as lágrimas lhe corriam pela cara abaixo e no rosto traços de sangue marcavam a sua pele como se fossem rasgos e marcas de guerra, tribais.

Esta é a última letra do alfabeto. Terminam-se hoje aqui vinte e muitas semanas, cada uma com uma letra diferente, cada uma com pessoas, lugares, situações tão diversas como os lugares onde foram escritas.

Yoga

Yolanda gritava com toda a gente. Tinha o feitio mais execrável que havia à face da terra. Era polícia, tinha dois metros e não havia homem que a derrotasse quando entrava numa luta. Yolanda tinha nascido assim, bruta, pura, por esculpir e muito se orgulhava de assim ser.

Xisto

É de xisto que a minha pele é feita. É desta pedra dura mas que se divide e se adapta que a minha metamorfose existe. Dentro e fora dela, a minha pele despede-se em camadas como se lascas de xisto se tratassem.

Os meus olhos, ao acordarem no mundo e a terem consciência de mim, viram abaixo das árvores e plantas e terra, abaixo, as pedras de xisto que as acolhem, que as suportam. Tal como o xisto suporta o Alentejo, também o Alentejo me acolhe e me envolve.

Whiskey com raspas de limão

Dançava como uma estrela de cinema. Fazia sapateado de forma tal que parecia envergonhar o mais profissional dos profissionais. Sabia, sem dúvida, o que fazia. E sabia fazer essas coisas todas. Era um profissional exímio das artes e da arte. O seu sonho era participar, organizar e ser a grande estrela num espetáculo a solina maior casa de espetáculos da Italiândia. A ideia estava lá e as coisas pareciam encaminhar-se para dar certo.

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