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literatura

Viver dói

Querida eu,

Chega de tremer. Faz o teu coração caminhar bem. Calmamente. Não estás numa corrida. Faz com que ele ande num jardim; num dia comum de primavera. O teu (meu) corpo não merece esta dança constante que o teu (meu) cérebro insiste em comandar.

Tenho um punho fechado e pesado permanentemente fixado ao longo do meu esófago.

Não, não tens.

A minha cabeça está a rodar.

É desta vez que vou.

Não aguento mais.

Chega.

Quero impor um fim a isto.

Aperto a mão. Com a força máxima que me é dada. Cravo as unhas.

Romã

Tenho uma árvore no meu quintal. Mesmo em frente à porta da frente, há uma árvore. Uma bela árvore. Opulente, graciosa, tem flores e tem frutos. Chama-se Romanzeira. O seu nome e o nome que lhe dei eu próprio. Sabia de todos os seus significados. Da sua componente espiritual em várias religiões. A minha romãzeira crescia e medrava a cada dia. Em frente à minha porta, parecia ser ela que me indicava o caminho a seguir.

Quantidade ou qualidade

Qualquer coisa, quando fosse necessário, servia para Cândido apresentar a sua versão das coisas que queria. Quase doutorado em Química, o estudante de terceiro grau, ofuscava com o seu discurso verborreíco qualquer pessoa que o rodeava.

Pouco percebia de coisas banais, mas tinha, ou fazia parecer que tinha, um extenso conhecimento sobre um pouco de tudo e aprofundado de nada. Isto, sabemos nós, eu e o leitor. O restante público que interagia com Cândido nada percebia das coisas de que falava e, por isso, podia de forma eloquente, expor a sua teoria completa.

Perceves?

Agarrado à rocha mãe, sentia-se seguro. Ainda que a água por vezes batesse com mais força, Perceve percebia que ali estava seguro. Assim era e assim se sentia.

Nunca e fácil afastar-nos do lugar onde temos a segurança de que precisamos. Era o caso de Perceve. Rapaz dos seus quase vinte anos, Perceve da Silva Cruz Pereira entrou para a universidade. Tinha chumbado um ano no ciclo, por só pensar em brincadeira e não estudar como deve ser.

A escrita que me descobre

Comecei a escrever em criança. Não sei quantos anos tinha. Se tivesse que dizer uma idade, apostava em sete anos. Era uma criança. Noutro século, quase. Não era a mesma pessoa, a única coisa que temos comum, neste momento, é esta incrível paixão pelas letras e a forma como se unem para criar uma melodia.

Lembro-me como se fosse ontem do quão adulta me sentia a escrever; recriava episódios dos meus desenhos animados favoritos e adicionava aquilo que eu queria que acontecesse, com novas personagens e intrigas.

Osga

Vivia com uma osga. Nas paredes do meu quarto e da minha vida, tinha uma osga comigo. Réptil que me acompanhava para todo o lado e que, agarrada com as suas ventosas, desafiava os meus medos mais irracionais. A osga olhava-me dia e noite. Por volta do meio dia agarrava um mosquito com a língua que punha de fora. As melgas e os mosquitos desesperavam com medo daquilo que poderia sair dali. A osga era infalível, cada vez que a sua língua se esticava. Muitas vezes mais longa do que o seu próprio corpo. Seria por ciúme? Sempre me intrigou e numa obtive uma resposta.

N coisas

Muito, muito. Demasiado. N coisas. Tanto, tanto, uma enormidade. Nunca tinha visto tantas coisas reunidas num só local. Havia um espaço pequeno repleto de coisas. Umas absurdas, outras convencionais. Um exagero de coisas que se avolumavam.

Nico Nunes habitava nesse espaço. Era menos do que um pequeno quartinho. Era onde vivia. Nico Nunes tinha ali naquele espaço n coisas. Recolhia-as há anos e anos. Aquilo que no início parecia um gesto normal tornara-se uma obsessão, uma desordem emocional que o levaria, anos mais tarde, a ser internado num hospital psiquiátrico.

Mistério no curral da Mimosa

Estávamos no ano de 1743, mais ou menos quase a meio, no mês de maio. A localização era a pequena freguesia de Santa Susana, localizado no meio dos montes. Não ficava absurdamente longe da povoação seguinte, mas ainda eram umas boas léguas até ao povo.

Lux Noctem

Deixei-me adormecer debaixo da mais sumptuosa e simultaneamente simples azinheira que se desenhava no recorte do Alentejo. Alumiada pela luz da noite, a azinheira centenária acolhia a luz da noite e eu dormia nos seus braços como uma criança feliz e segura.

A luz da noite, lux noctem, sussurrava-me aos ouvidos as belezas do universo, das coisas que se moviam nos ares escuros e que traziam consigo os sonhos que as crianças têm enquanto dormem.

Kalimero

Recordo-me tão bem de ti, quando ainda tinhas metade do ovo na cabeça e era o pinto frágil e tímido que me entrava pela televisão a dentro. E eu ficava contente e gritava, obrigado, obrigado!!! Fora eu grego, soubera eu o significado do teu nome. Kalimero, obrigado, obrigado. Encontramo-nos ambos, depois, muito mais tarde e mais velho. Não te reconheci à primeira vista. Talvez fosse porque o ovo que até aí tinhas na cabeça, era aquilo que te diferenciava dos outros. Bem, também poderia ser a tua timidez. Kalimero. Encontrei-te e não te reconheci no primeiro momento.

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