6 Janeiro 2018      11:35

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NÓMADA

O som do aspirador dissipava-se, com a distância. O som da água que corria num riacho longínquo tornava-se cada vez mais efémero e desaparecia ela também. Pedro voltava a si e ao comboio onde estava. A carruagem era tão antiga que os bancos eram em madeira já percorrida pelas traças. Nem o envernizado dos bancos as impossibilitara de viajarem também naquela carruagem. Pedro abria os olhos lentamente para observar, pela janela, o rio que o acompanhava e ao comboio que se deslizava, empurrado pela força do vapor. Ouvia o tempo a passar, à medida que naquela linha o tempo se transformava na carruagem vermelha, nas águas do rio abaixo e no verde das montanhas, entre o cinzento dos rochedos. Pedro estava sentado no sentido do destino.

Na mesma carruagem, caras tão estranhas como o estranhamento que Pedro lhes causava. Tentavam ignorar a sua presença, enquanto Pedro se tentava ignorar a si próprio, enquanto olhava pela janela e abria as possibilidades, sonhando no destino e nos percursos. Ele, impávido, sem esboçar um sorriso, sonhava de olhos abertos. Enquanto sonhava, esboçava os sonhos, a carvão, num pequeno caderno preto, cheio de folhas amarelas, vazias. Deixava nelas esboços da realidade com o carvão. Igual ao que o fazia andar naquele comboio já ultrapassado.

Continuavam, sabendo que a viagem duraria horas. Sabendo que a comida seria igual a todas as outras que já comera. Continuava. As pessoas sabiam o que faltava para o destino. Pedro não sabia, nem conhecia cada uma delas. Esboçou o rosto de uma delas e, quando voltou a fechar os olhos e quando sonhou, falou com a pessoa que não conhecia e contou-lhe histórias de um nómada sedentário que era.

Disse-lhe, numa língua que imaginou ser a dela, que esta era a última vez que saia do seu lugar de conforto. Que vivia num país onde a sua rotina era igual a de todos os outros e que todos os outros eram como ele. Usava fato escuro, com gravata estampada e era magro. A camisa era branca e Pedro era uma pessoa aborrecida. A pessoa a quem contava a história da sua vida parecia entender tudo o que lhe contava e fazia perguntas. Perguntava porque se apelidava de nómada. Pergunta difícil pensou Pedro que acendia um cigarro e se preparava para contar como começara.

Era um dia de inverno, daqueles em que a neve caía em alguns sítios. Não naquele onde vivia. Nesse, só chovia sem parar. Inundava os terrenos até que a terra, empapada, não conseguia absorver mais. Outros dias, meses, havia em que nem uma gota caía do céu e fazia com que a terra que ora fora empapada e originara o homem de barro, era agora o pó do fim da vida, de que falam as Escrituras. Pedro contava a história dos tempos, entre barro e pó, entre o que é e o que será. Era o conto do homem que era ele próprio nómada. A pessoa que desenhara e com quem falava, ouvia-o e perguntou-lhe sobre a sua primeira viagem. Fora à Sibéria. Conhecera o mais frio dos frios e a sua pele tornara-se uma estátua de gelo. Dentro dela respirava ainda, coberta por um espesso manto de campos alvos. Nunca deixara de sentir os membros e ficara feliz por senti-los de volta. Assim se voltava a conhecer em todos os extremos. Pedro viajara também de comboio, nessa viagem, num percurso que parecia sem fim.

Na segunda viagem de Pedro, nómada, acontecera num barco, saindo do Atlântico, rumo ao Atlântico. Partiu de terra e a terra chegou. No meio da viagem, explicou à pessoa que só o azul se via e a pessoa acenava como se conhecesse as milhas do mar tão bem quando ele, ainda que nunca tivesse visto a cor do mar ou sequer sentido o sabor do peixe do Atlântico.

Foram juntos, na terceira viagem, ao deserto, um longo e infinito deserto onde só a resistência sobrevive e onde as dunas se tornam mais altas que a maior das montanhas do mundo. Pedro parecia mais impressionado do que a pessoa a quem contava o deserto. Era como se lá estivesse estado sem nunca ter sentido as palmadas da areia no rosto. Era a viagem que se completava com o tocar dos lábios na água parada de um oásis que era miragem.

A pessoa continuava a ouvir com atenção todas as viagens de Pedro que segurava, na página onde desenhava o rosto, o caderno das suas viagens. Em todas, em todos os lugares, desenhara só rostos. Como o seu, de nómadas sedentários que se deslocam e sonham em viagens, como o de todos os outros que nunca se deslocaram além da zona de conforto. Assim era Pedro, o nómada, numa viagem que percorria os cantos do mundo oval. A pessoa sorriu e levantou-se do lugar. Pedro sorriu e abriu os olhos novamente como se a viagem que era a sua primeira fosse a última. Faltava ainda muito para chegar. Pedro não sabia. Todos os outros sabiam mas não falavam a sua língua.  

 

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