29 Junho 2019      13:07

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Corta-unhas

Discutiram ostensivamente os dois. Cada um parecia ter a razão do seu lado. Cada um queria ter a razão do seu lado. Infelizmente nenhum deles a tinha. Tinham sido um casal feliz até esse momento. A partir daí tudo começou a piorar. Quem imaginaria que tão inocente e útil utensílio teria esse efeito. De facto, nada assim o suporia mas teve.

Ela, acabada de acordar, ainda com os olhos meio fechados e com o cabelo semelhante àquele de quem acabara de ver um lobo, sai da cama, ainda ele dormia. Não deu por nada.

Ela dirigiu-se à casa de banho para tomar banho, pentear o cabelo e cortar as unhas dos pés. Não tinha tido tempo nessa semana para ir fazer a pedicure e as unhas tinham crescido tanto que fazia impressão. Era uma imagem do lado do Inferno. Bem, talvez não fosse tanto assim mas até que sabe bem exagerar.

Ele continuava a dormir. Ela preparava-se para abrir o cofre onde guardava o corta-unhas. Isso mesmo que leu, ela guardava o corta-unhas num cofre para que o marido não o usasse. Nem o marido nem ninguém. Não havia objeto mais privado do que aquele corta-unhas para aquela mulher. Era um corta unhas bastante feminino, cor de rosa e cheio de flores, mesmo ao gosto da dona.

Ele, tinha outro corta-unhas, meio arcaico, já com alguma ferrugem mas não se separara dele desde que o viu. O corta-unhas dele não estava dentro de um cofre. Pelo contrário, andava perdido no meio da máquina de barbear e dos os outros utensílios.

Ela, quando abriu o cofre, o choque foi tal que o grito que deu acordou a vizinhança toda! O seu precioso corta-unhas não estava no cofre! Teria sido roubado? Que teria acontecido? 

Ele acordou sobressaltado com aquele grito de fúria e desespero. Correu para a casa-de-banho receando o pior.

Nesse momento, já ela estava prostrada no chão e as lágrimas enchiam o chão ao redor do seu rosto. Ele perguntou-lhe o que se tinha passado e, aos soluços, respondeu que o seu corta-unhas tinha desaparecido. Tinha sido roubado do seu cofre. O seu bem mais precioso tinha deixado de existir fisicamente naquele lugar. Não havia forma de a consolar. 

Ele sugeriu então que usasse o dele, procurando amenizar a situação. Hoje compramos um novo, não te preocupes querida. Hoje ainda compraremos.

Quando se preparava para retirar o seu corta-unhas da gaveta, o choque foi ainda maior. O dele também não estava lá. Tinha desaparecido também! O que será que aconteceu. Alguém tinha tido a coragem de lhes levar os corta-unhas. Ah que maldade. Que acto vil! Quem teria tido coragem?

O seu olhar virou-se para o espelho, onde se podia ler uma mensagem, claramente gravada por um metal. Dizia o seguinte:

Meus amores, após uma década de passarmos o tempo a ser apertados e a tocar essas vossas unhas que tantas vezes desprezamos, decidimos por um ponto final e fugimos, impulsionado pelo nosso amor. Assinado, eu corta-unhas dela que levei o dele.

O homem nesse momento tornou-se ainda mais obcecado do que a mulher e aquele que parecia ser uma paz de alma, culpou a mulher pela fuga dos dois e, além de passar uma semana sem lhe falar, a relação dos dois nunca mais foi a mesma. Os utensílios cortaram não só as unhas mas também a beleza de uma relação apaixonada e apoderaram-se dela.

 

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