1 Abril 2017      13:13

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O CESTEIRO

"PARALELO 39N"

As mãos do Ti Feliciano Costa eram envelhecidas e gastas pelo tempo. Eram mãos deformadas pela artrose e gretadas do frio e do trabalho. Os seus dedos, grossos, já não se endireitavam. A imagem mais clara que tenho de si é a de um homem envelhecido, cansado, curvado pelo tempo, que se sentava numa cadeira de madeira em frente à porta da velha casa de taipa, ao lado da ribeira, onde a mesma curvava e que passava a tarde a manusear o vime, fazendo cestos de todo o feitio. Uns maiores, outros pequenos, umas grandes, as canastas em verga mais rude, com a casca que as tornavam escura e pronta ao trabalho que era destinado.

As mãos do Ti Feliciano Costa eram tão velhas quanto aquilo que a minha cabeça imaginava quando eu, ainda miúdo, agarrava na bicicleta e pedalava ladeira abaixo até ao monte onde ele vivia. O próprio sítio tinha já ganhado o seu nome. O monte do Feliciano Costa. Nunca tinha casado, fora sempre um eremita que passava os dias a trabalhar o vime, a cultivar as hortas ao redor da casa, a pôr o vime na ribeira durante dias a amolecer para poder ser moldado e dar origem aos cestos. Vinha gente de longe aprender com ele.

Queria saber fazer cestos, que não se perdesse na memória e no esquecimento a arte de moldar o vime e tornar a verga nos cestos clarinhos, depois de descascados os ramos que fariam a arte. Um só não tinha força, todos juntos, ninguém os parte. Ouvira sempre isto, toda a minha vida. Ti Feliciano Costa, andava muitas vezes de saca às costas, como uma figura meio mitológica, misteriosa que contava histórias e sabia fazer cestos.

Ainda hoje vejo com clareza os olhos do velho homem, sentado na cadeira. Casaco vestido, chapéu gasto, e as palavras que saiam da sua boca que tinha já perdido quase todos os dentes. A sua voz era pausada e contava histórias. Muitas delas apagaram-se já da minha ideia. Outras permanecem vivas, como tão vivo permanece o segredo de fazer os cestos. É preciso deixar a verga, depois de apanhada, durante dez dias, dentro da ribeira, a amolecer, para poder ser moldada. É preciso tirar e limpar os ramos para que fiquem clarinhos como a beleza dos cestos rendados que dela sairão. Uns cestos serão maiores, outros mais pequenos. Outros terão asas e haverá travessas rasas, tudo um vime, ou verga, como lhe queiram chamar.

Guardo ainda hoje, em vários sítios de minha casa, os cestos feitos pelo homem de casaco, chapéu e que contava histórias. A voz e as memórias ficaram gravadas em cada ramo entrelaçado dos cestos. Espalham-se por vários lugares e por várias casas. Guardam coisas e histórias. Cada um desses cestos, no processo de feitura, era uma memória de outro tempo, mais antigo do que aquele, na altura em que me foi contado. O Ti Feliciano Cosa tinha gatos que o rodeavam na casa de taipa onde vivia e esperam um pouco de comida, as sobras da carne que ele, em tantos dias, tirava do tacho que estava numa trempe ao lume, no solo de terra batida onde ardiam sempre alguns lenhos e onde a carne cozia e que ele consumia, numa fatia de pão, cortada com uma faca antiga. Tão antiga quanto as histórias que contava. Em cada cesto, uma história, um número infinito de coisas novas e imagens que se me gravavam na cabeça e, por isso mesmo, as posso escrever hoje.

De cestos, ficaram-me apenas alguns passos, desde o início, fazer o fundo, lembro-me, era o mais difícil. Tentei fazer, manter na memória mas essa arte, contra a minha vontade, permaneceu com o Ti Feliciano Costa que levou consigo na sua partida. Os segredos que sabia, os gestos que fazia nos cestos, ficaram consigo e, na nossa memória fica o nome e os fragmentos do homem que fazia cestos.

Vejo-o sentado na cadeira à sua porta, contando as mesmas histórias, fazendo e desfazendo os mesmos cestos, as mesmas canastas. Continuo a fazer-lhe as mesmas perguntas e a ter as mesmas respostas. Naquele braço, na várzea, onde passa a ribeira, ainda caminha de regresso a casa, vindo do lado da Seladinha, com uma saca às costas, com o casaco, o chapéu, ainda se senta o cesteiro na cadeira e conta histórias do tempo e das mãos que desenham os dias e tremem, rendilhando as coisas, ao mesmo tempo que as conta.

 

Fotografia de Louis Rua de hiveminer.com

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