7 Março 2020      10:11

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Março

Os primeiros dias do mês passaram-se calmamente. Apesar de as noites ainda parecerem de inverno, os dias eram maioritariamente cheios de sol, com algumas nuvens à mistura, tanto em Beja como na Madeira. Nesta última, o tempo esteve mais quente.

A segunda semana do mês foi atípica e os campos ficaram ensopados com a quantidade de chuva que caiu. As barragens ficaram cheias e as primeiras sementeiras estavam a ser planeadas. Lá para meio do mês a primavera chegaria, sem timidez. As primeiras flores iam aparecer e tudo voltaria a nascer. O ciclo da vida assim o determinava.

Nos campos à volta de Beja já se notavam as diferenças e as coisas começavam a mudar. Março podia ter sido um mês estranho, mas não foi. Abril iria corresponder ao ditado que diz abril águas mil.

Em Beja, a vida decorria normalmente, sem grandes pressas. As pessoas iam para i trabalho, iam para casa, faziam compras. E saiam para se divertir. Havia acidentes, roubos, furtos, pessoas que adoeciam e iam ao hospital. Alunos que faziam testes, alunos que passavam e outros que reprovavam.

As escolas iam entrar de férias na segunda quinzena do mês e todos os alunos podiam aproveitar o bom tempo, porque nessa quinzena não choveu.

Alguns idosos iam com alguma frequência à farmácia buscar mais medicamentos e as oficinas dos carros não deixavam de ter trabalho a mudar o óleo e a arranjar as avarias.

Nos restaurantes notava-se que tinha havido menos pessoas do que normalmente. Talvez porque gastaram muito dinheiro no Carnaval que tinha acontecido poucos dias antes do início do mês. Assim andavam todos um pouco contidos nas despesas.

Os serviços públicos abriam às nove horas e fechavam às 18 horas. Faziam duas horas de pausa para almoço. As pessoas já sabiam, já conheciam o sistema e era rotina.

Nada de anormal se tinha passado na cidade durante o mês que fosse tão insólito e que devesse aparecer nas primeiras páginas do jornal. Que eu saiba não tinha havido nenhum crime nesse mês e a guarda respondia a acontecimentos e ocorrências menos graves.

Porém, apesar de não estar no jornal, havia algo insólito que me preocupava naquela cidade e em particular naquele mês. Saberá, por certo, o leitor daquilo que lhe falo.

Precisamente. O mês de março passará, com a normalidade que se quer, de um mês de transição entre o inverno e a primavera. Haverá sol e haverá chuva, os ventos passarão pelas planícies e pelas ruas da cidade, no meio das casas pintadas de branco. Não haverá sol e demasiado nem as noites, apesar de frias, o serão tão geladas como em dezembro.

Beja é uma cidade que se despede do inverno e dá as boas vindas à primavera. No entanto, nunca, em todo o mês se ouviu falar de Eloísa. Ninguém em Beja sabia do seu paradeiro. Ninguém no mês de março teria notícias dela, nem nós sabemos algo que possa ajudar a perceber o que lhe sucedeu. Isso, só o saberemos em abril. Eloísa e a verdade do seu paradeiro virão com as chuvas, só em abril se saberia o que aconteceu à jovem no primeiro dia do mês anterior.

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