7 Maio 2020      13:25

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Fornos de Cal na Zona dos Mármores - Uma potencial candidatura a Património da Humanidade?

No dia 4 de Maio, procedemos a um novo levantamento relativo aos fornos de cal nos concelhos de Borba e de Vila Viçosa.

Os fornos de cal tinham uma especial relevância na vida das comunidades desta zona. Pelo menos desde a Idade Média que é conhecida a produção de cal, obtida através da liquidificação do mármore a elevadas temperaturas. O ciclo da transformação da cal consistia em calcinar o carbonato de sódio, entre 800 a 1000ºc, convertendo-o em óxido de cálcio/cal-viva e libertando o dióxido de carbono. 

Estes conjuntos edificados em tijolo e pedra são testemunhos de um tempo passado, onde o trabalho, demasiado exigente do ponto de vista físico, deixava marcas nas mestres e era uma referência na paisagem deste contexto. Tudo era feito a “braço”.

Consideramos que este trabalho de recolha e de inventariação dos fornos abandonados permite dar a conhecer a importância deste ofício nesta região, muito conhecida pela produção de cal.

Para sabermos mais sobre este processo, contámos com a preciosa ajuda do Sr. Eliseu Fusco.

Com 62 anos de idade, natural da Nora (concelho de Borba), Eliseu começou a trabalhar nos fornos de cal da freguesia, com 13/14 anos. Ajudava sazonalmente os mestres caleiros, sobretudo no período da cozedura, que durava dois dias e duas noites seguidas. A sua função consistia em puxar a lenha para o interior do forno. Quando a labareda começava a faltar, era necessário alimentar o forno de material combustível e essa função era determinante para o sucesso da cozedura. O lume não podia “morrer”.

Para obtermos mais informações sobre estas estruturas edificadas, disseminadas antigamente por esta região, visitámos os fornos ainda existentes da Vigária/Mouro, Nora e Barro Branco, hoje abandonados e perdidos por entre a densa vegetação, com exceção do último. Este forno era utilizado pelo Mestre Festas e deixou de estar em atividade há cerca de 15 anos. Em Vila Viçosa estão referenciados mais cinco.

Os fornos de cal constituíam estruturas em formato circular com um acesso, por onde inicialmente eram colocadas a pedra e a lenha no seu interior, começando o empedrado desde a superfície até ao topo do forno, que ficava totalmente preenchido com cada fornada. Um ajudante ficava precisamente no topo da estrutura, passando a alvenaria ao mestre que ia empedrando, até se atingir a carga máxima do forno. Era sobretudo no final do inverno, quando se aproximava o tempo das “caianças”, que a produção de cal atingia os maiores níveis em termos de quantidades.

Em termos do ciclo operativo, as diferentes fases de produção tinham uma sequência lógica:

Em primeiro lugar, era necessário recolher material combustível para o forno poder funcionar. Os carros de parelha traziam esteva aos molhos da Serra de Ossa e também madeira de azinho e de oliveira. A lenha era acumulada posteriormente na envolvente dos fornos. Nos anos 40/50 do século XX, utilizava-se também bagaço, trazido da antiga SOFAL (Sociedade Fabril Alentejana), uma unidade agroindustrial localizada no antigo Convento de São Paulo em Vila Viçosa.

A pedra, em alvenaria, era transportada das pedreiras desta região, também em carros de parelha e era posteriormente introduzida juntamente com a lenha, através de uma técnica específica, conforme referimos, nos fornos, de modo a cozer o empedrado de modo uniforme, tendo em vista a sua transformação em cal. Todo o processo era manual.

Os fornos produziam cal preta, feita a partir da pedra “olho-de-mocho” ou “cascalva” e que originava a massa de reboco e a cal branca, feita a partir da pedra mármore, que se transformava numa massa mais fina, muito utilizada nas “caianças” características do Alentejo. Segundo Eliseu Fusco e de acordo com as informações do Mestre Festas, a melhor pedra para a cal branca vinha da pedreira da Vigária. E era no local que esses pedaços de pedra branca eram recolhidos, para serem transportados, em carroça, para os fornos.

Tratavam-se de fragmentos de mármore que não tinham outra utilização, sendo por isso aproveitados para a produção de cal.

Durante as jornadas de trabalho, formavam-se, os “giros”, que não eram mais do que os turnos de vigilância do forno. Durante as cozeduras, faziam-se grandes petiscos nas imediações destas estruturas edificadas, com vinho, pão, queijo e chouriço, que ajudavam a passar o tempo.

Quando a cal era desenfornada, depois do processo de arrefecimento, surgiam logo os clientes para adquiri-la. O frenesim era maior durante o tempo das “caianças”. Em alguns casos, o mestre caleiro deslocava-se, na parelha, de terra em terra, de monte em monte, para vender o produto.

No forno da Nora, falámos com o Sr. Romão António Fusco (85 anos), pai de Eliseu, que também trabalhou nos fornos e que transmitiu também o seu saber ao filho.

Diziam os antigos que o fumo dos fornos de cal era saudável e tinha um odor bastante agradável. Há cerca de 40 anos, trabalhavam neste sector cerca de meia centena de pessoas, só nesta região dos mármores.

Em termos económicos, até à introdução das tintas plásticas, tratava-se de uma atividade muito importante. A concorrência dos produtos industriais e das cimenteiras acabou por contribuir para o gradual desaparecimento da atividade em torno dos fornos…

Infelizmente, esta é uma arte que está em vias de extinção, não havendo neste momento nenhum caleiro em atividade.

Um saber tradicional, que necessita salvaguarda

Durante o período de confinamento, percorri a envolvente das localidades de Borba e de Vila Viçosa e constatei a existência de um número significativo de ruínas de antigos fornos de cal. Na zona dos Arcos e em Sousel existem mais. Este levantamento, acompanhado por um trabalho de terreno que possibilitou a realização de algumas entrevistas, permitiu perceber que este saber se encontra quase extinto.

São poucas as pessoas que conhecem o processo operativo. No entanto, ainda existe uma ténue memória na região, transmitida por alguns antigos caleiros e ajudantes. Através de ferramentas como o Google Earth e com a sobreposição de mapas antigos,  é possível constatar a existência de um número considerável de fornos no século XIX, em que esta atividade tinha muita relevância económica nesta região (ver mapa em anexo)[1]. As pesquisas continuam com o auxílio desta ferramenta.

Tendo em conta o exposto anteriormente, propus a elaboração de uma candidatura conjunta dos Fornos de Cal, presentes nos Municípios da Zona dos Mármores (Borba, Estremoz, Sousel e Vila Viçosa), a Património Mundial da UNESCO.

A quantidade de fornos existentes nesta região, num passado não muito remoto, permite perceber a importância socioeconómica deste conjunto patrimonial, disperso pelos quatro concelhos, em risco de desaparecer.

Talvez fizesse sentido uma candidatura mais abrangente, que integrasse a região Alentejo neste projeto. Em Beja já foram dados alguns passos neste sentido. Penso que será necessária uma análise sobre o tema.

Um estudo mais aprofundado sobre a cadeia operativa pode reabilitar o conhecimento sobre este antigo ofício, num tempo em que os homens que dominavam ou conheciam a técnica são cada vez menos, com a inevitável perda do conhecimento tradicional. O saber fazer vai gradualmente desaparecendo e é essa tendência que deve ser anulada com esta iniciativa.

Considero que existem algumas vantagens neste processo, nomeadamente a singularidade deste antigo trabalho; o facto de fazer o aproveitamento e transformação de produtos naturais; a existência de testemunhos edificados dos antigos fornos, em contexto natural e numa paisagem única, marcada pelas pedreiras; a afirmação da zona dos mármores como unidade territorial e cultural nesta área; a disponibilidade de informações de antigos mestres caleiros ou ajudantes ainda vivos e o facto de tratar-se de uma particularidade muito relevante da Zona dos Mármores, como atividade complementar às indústrias da extração e transformação.

Seguramente que a possibilidade de reabilitação deste antigo ofício seria bem acolhida a nível da UNESCO, tendo em conta a sua inevitável extinção, se não forem tomadas medidas concretas.

Poderia também ser concebido um projeto intermunicipal faseado em termos da musealização das estruturas, que teria que englobar, em parceria com os proprietários, uma intervenção em termos de restauro.

Por outro lado, a implementação desta iniciativa poderia constituir uma vantagem relevante do ponto de vista turístico, através do incremento das rotas já existentes, privilegiando visitas ao ar livre, em contacto com a natureza.

Em termos de planificação, poderia ser realizado numa primeira fase um inventário das estruturas existentes em cada concelho, a realização de entrevistas aos antigos mestres caleiros ainda vivos, a análise de bibliografia produzida sobre esta temática e a criação de uma plataforma com contributos de diversas instituições locais, regionais e nacionais (CECHAP, ASSIMAGRA, LNEC, Universidade de Évora, Direção Regional de Cultura do Alentejo, CCDRA, entre outras).

Torna-se urgente e fundamental registar as técnicas, os processos de produção, os materiais e as ferramentas tradicionais envolvidas no processo de fazer e aplicar a cal na arquitetura e dar a entender a importância desta atividade na Zona dos Mármores.


[1] Agradeço o suporte e apoio técnico facultado pelo Manuel Pinheiro, que disponibilizou as informações e o mapeamento de alguns fornos de cal existentes na região, entre 1866 e 1876. Estamos neste momento a tentar identificar e confirmar as localizações. Em muitas situações, o excesso de vegetação e o estado de ruína impedem essa possibilidade.

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