14 Janeiro 2019      09:10

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A canção pop perfeita…

Paul Feyerabend

Por mais voltas que o pobre e belo mundo venha a dar dificilmente se poderão definir (ou melhor, circunscrever) as razões que levam uma canção pop a ser considerada perfeita. Não com a certeza pós-primitiva que é apanágio dos justos. Canção pop perfeita – Ui! Plim plons plim plons numa sequência subjectiva como que a levar-nos pela mão ao altar da mestria absoluta em pouco mais de três minutos. É o impraticável tornado viável, apesar de tudo? Singularidade que apenas interessa aos “náufragos do fim dos tempos” – aos que restam (sim, refiro-me a nós).

Poucos e loucos… A maldita voz interior clama por uma tentativa séria.

Mais do que uma opinião, seguramente, porém menos do que uma ideia (ou melhor, a composição de uma ideia segundo pressupostos metodológicos). E aqui, vem-nos à memória o trabalho de Paul Feyerabend, pensador que não suportava a prisão do método. Dizia que a utilização de termos (tão habituais) como “verdade”, “realidade” ou “objectividade” acabavam por tornar a ciência em algo estático, que a partir de um certo ponto não poderia progredir, uma vez cristalizadas as tais verdades. Enfim, como aviso – contra o perigo de olhar para postulados científicos de forma rígida, i.e., como fenómenos não transitórios, tudo muito bem (ou porque não?). Por puro gozo, melhor ainda, pois um dos termos que Feyerabend introduziu foi o de Anarquismo Epistemológico, a, facilitemos no discurso, profusão de teorias sob o fundamento: menos regras, mais inspiração; a libertação do pensamento ad infinitum.

Uma coisa é certa, a existência de um espaço mental vasto onde a liberdade de opinião e a vaidade intelectiva se intersectam é essencial para o…estado de compreensão que leva a que alguns seres vejam subitamente tão claro – a perfeição em tão poucos minutos de, não raras vezes, tão simples melodia. É preciso mais do que presunção, pois uma hipótese (consideremo-la sã para melhor entendimento) não é, em si, um fecho. Não encerra o que quer que seja. É um luxo a que nos podemos dar, tão-somente. Começa aí, pois tem de começar em algum lado. Contudo, bem mais importante, é a predisposição para o efeito de explosão que a liberdade de escolha naturalmente provoca. Uma sensação de ausência de peso que pode ser devastadora. O ponto onde a tese é irrebatível, mas faltam os termos lógicos para a sua defesa. Como processo, é e não é analítico, portanto.  

Por estranho que pareça, a intuição diz-nos que não é uma questão de potencial. Uma canção absolutamente genial como 2HB, dos Roxy Music, não fechou o círculo. Uma versão cantada por Thom Yorke para a banda-sonora de Velvet Goldmine (1998), filme de Todd Haynes, melhorou substancialmente o que já estava feito. Mas a canção é a mesma, apenas se conseguiu conceber / produzir uma versão melhorada. E, enfim, uma versão não poderá nunca substituir o original. Aperfeiçoar é ir elevando a patamares diferentes. Um estado de perfeição é um sistema que retém a energia primária e que não permite acrescentar – Só é perfeito se for criado perfeito. Uma versão (mesmo se plenamente conseguida) é apenas e tão só…uma versão (eventualmente aprimorada) de uma canção.

A chave, nesse caso, terá de ser algo assim:

A canção pop perfeita é a melodia que não pode ser melhorada. Nenhuma versão será melhor, pois os elementos primários já se encontram reduzidos a um mínimo não divisível – e, também, delícia das delícias, já não observável a não ser por meios exclusivamente perceptuais.

A acreditar na tese (e acreditamos solenemente), eis alguns exemplos de canções pop perfeitas:

- Dexys Midnight Runners – Come On Eileen

- A-ha – Take On Me

- The Beach Boys – God Only Knows

- Abba – Lay All Your Love On Me

- Pet Shop Boys – Rent

- The Cure – Catch

Ou seja, apresentem-me uma versão melhor destas pérolas, e então conversamos.

 

Imagem de editoraunesp.com.br

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