Está aqui

Ricardo Jorge Claudino

O que fazer no Alentejo?

Assistir ao brotar de um grão de trigo
e pela primeira vez pensar
na derradeira sorte
de ter pão e vida.

 

Imagem de casaredo .com

 

---------------------------------------------------------------------------

O Grande Lago

Neste lago de infinitas polegadas

peço explicações a todas as minhas

reflexões.

 

Foi por escutá-lo que entendi

as suas ondas ténues falantes,

formadas de gota em gota,

tal como humanos se formam

de palavra em palavra:

 

— Somos um espelho;

reflectimos nos outros

o que reflectem em nós.

 

 

Liberdade

Se pudesses escolher

que cor darias à liberdade?

 

Tens a certeza?

Mesmo depois de te ensinarem que

vermelhos são os campos,

verdes são os lírios e

azul é a tempestade?

 

A tua liberdade

é do tamanho do livre-arbítrio

multiplicado pela vontade.

 

Nunca uma coisa tão real

foi tão infinita

e nunca o infinito

foi tão limitado

para se tornar essencial.

 

Anda, vem brindar connosco;

— quem é livre de festejar

toma a sua liberdade por gosto!

O provérbio Talvez

Se não existisse o “às vezes”

A voz

Cantam vozes

pela solidão do povo;

porque quem canta

fá-lo pelos males que espanta

e por sonhar um caminho novo.

O prometido

foi-se prometendo;

a grandeza latifundiária

heterogénea e ordinária

nunca foi bom remendo.

O mundo é cobiçado

pelos que querem mandar;

mas é o cante pela alma cantado

neste tom tão solene e honrado

que faz do Alentejo propriedade.

 

 

Imagem de noticiasaominuto .com

Eco

O final de tarde a chegar

o vento que vagueia no monte

a história de tudo o que já foi.

 

Na luz da imagem

corre apressadamente

o tempo.

 

Felizmente há som

dançando sozinho

em velocidade menor.

 

O som ecoa

onde a luz reflecte.

 

Tudo existe:

o passado promete.

 

 

Imagem de ebdinterativa.com. br

 

---------------------------------------------------------------------------

O soneto do outeiro

Se a pomba aterrasse no outeiro

Sob o meu olhar de vigia distante,

Ler-lhe-ia o bilhete do pombo-correio

Que traz boas-novas de um voo errante.

Contar-lhe-ia toda a verdade

Sobre o céu, a aerodinâmica e o amor,

Pois nada é maior do que a vontade

De trazer na asa a mais serena flor.

Se fosse adivinho,

O pombo-correio voaria mais baixinho

Para encurtar caminho.

A planície coraria primeiro

Todo o planeta seria vermelho;

— Ah, se a pomba aterrasse no outeiro!

 

 

Inveja

Invejo o pastor que faz do monte a sua casa.

Afortunada vida que parece ter,

— a dele ou a minha?

Quem vê de longe deseja ser

O que de perto se ignora

Passa o tempo

Nasce o arrependimento

De não ir enquanto é hora.

O pastor cuida do gado

Como eu cuido dos números

Pelo sol ele é castigado

E eu, nem por qualquer astro sou amedrontado!

Caminhamos unidos pela inveja de um sonho

convictos de que sonhar nos faz ser

quem somos.

 

Imagem de arquivomunicipal. cm-lisboa .pt

 

A gota mais pequena desta ribeira

Sempre que aqui estou, sinto ser
a gota mais pequena desta ribeira,
que corre em busca
do encontro inesperado
com um rio que me queira.

Não ambiciono fazer parte
de um rio muito grande,
e afluir em águas famosas
é o que menos quero.

Sempre que aqui estou,
sinto que sou o que
a gota mais pequena desta ribeira
nasceu para ser:
— um pouco do som,
da luz, da paz e do luar
que te faz fechar os olhos
e me desejar.

 

Imagem de wikimedia.org

Ó mãos que beijam a terra

Ó mãos que beijam a terra

na fértil esperança da semente efémera!

Fostes feitas para trazer do futuro

as rugas que o tempo espera.

As rugas que o tempo espera

são lágrimas que o suor ampara.

Ó mãos que beijam a terra,

deixai para trás a miséria,

brindai pela paz,

(a fartura é inimiga da guerra).

Ninguém vos pode vencer!

As mãos que beijam assim

são livres de escolher.

— Dá-me a tua mão;

se quiseres,

juntos seremos a terra

que mais ninguém quis ser.

 

Páginas