27 Julho 2018      15:31

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Emprestas-me um lápis cor de pele?

Há cerca de um mês terminou mais um ano letivo. As nossas crianças foram gozar as merecidas férias, enquanto os seus docentes iniciavam mais uma luta, justa para muitos e descabida para outros. Já agora só um parêntesis: imaginem não contarem 9 anos de escolaridade aos vossos filhos. Se o tempo não existiu para os professores como foi possível as crianças evoluírem durante este período? Mas não é disto que hoje vos quero falar.

Qual o docente, do ensino pré-escolar ou do 1º ciclo, que não ouviu, vezes sem conta, a frase: Emprestas-me um lápis cor de pele? E o que fazem muitos de nós, e as crianças? Disponibilizam-se lápis castanho muito claro ou cor-de-rosa, e se tal não acontece surgem reclamações.

Pois bem, aqui que a intervenção do adulto se torna imprescindível, e de carater urgente. Não podemos permitir que inconscientemente, ou conscientemente, continuemos a alimentar práticas preconceituosas, quase sem darmos por isso. É nestes pequenos gestos que, muitas vezes, se inicia o combate ao racismo institucional. Este começando a manifestar-se muito cedo e, se ao ser pedido um lápis cor de pele, continuar a ser disponibilizada a cor rosa ou o castanho muito claro, mais não estamos a fazer do que perpetuar uma ideologia de que nos envergonhamos.

Na escola compete-nos corrigir. É muito fácil ensinar a respeitar e entender as diferenças. E em casa?

Não é possível democratizar a escola enquanto processos segregativos continuarem a vingar. É nas escolas, frequentadas por crianças de etnias diferentes, que se verificam o maior número de retenções ou pelo encaminhamento precoce para cursos profissionalizantes, muitas vezes desrespeitando os interesses dos alunos. E porquê? Terão por acaso estas jovens menos capacidades que os nossos filhos?

Nas escolas o diálogo multicultural continua muito aquém do expetável. Mas, por outro lado, também sabemos que muitas das etnias com quem convivemos diariamente, desconhecem os seus deveres e os seus direitos, no que respeita à integração societária. O esclarecimento ainda está por fazer.

Tudo persiste em girar em torno de um monoculturalismo: os manuais, os currículos, a formação contínua…Esta muito raramente disponibiliza ações direcionadas para as práticas multiculturais, e as preocupações com o tema são escassas mesmo sabendo que é crescente o numero de crianças culturalmente diferentes.

Trabalhar com, e para a diferença exige empenho e dedicação, ocupa tempo, muito tempo, e é sempre muito difícil questionar o que nem sempre é fácil de alterar.

A relativização do tema (racismo) e os diferentes conceitos culturais que lhe estão agregados, não dependem apenas dos regimes políticos. Cabe, aos docentes, denunciar o que está errado e ajudar a esclarecer conceitos incompreensíveis.

Ninguém nasce racista, mas também ninguém nasce educado. Pouco importam as minhas definições, o que verdadeiramente me interessa são as verdades das minhas liberdades de pensar e de questionar. As respostas acabarão por surgir e, levantar dúvidas, torna-se inevitável.

O racismo cultural continua a circular nas redes sociais, continua vivo nas escolas, continua a marcar presença em todo o lado. Assim, procurando coisificar verdades inexistentes, busco contribuir para que lhe seja dada a importância devida e tão pouco reconhecida.

Exigir que a escola seja para todos é muito mais que um desejo, é uma obrigação.

Imagem de capa de George Lebada

 

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