18 Fevereiro 2015      00:00

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Antissemitismo: o snobismo dos pobres

Quando a sociedade se organiza em torno de cultos, religiões ou raças o resultado é o espanto. Aquele espanto que empregamos para exprimir o desencanto de viver numa sociedade que, em pleno século XXI, ainda tolera os actos persecutórios mais bárbaros. Hoje em Copenhaga, ontem em Vincennes e outrora em Auschwitz. Depois surge a questão de saber que terão feito os judeus europeus de tão mau ao longo da história para merecer tão atroz destino.

Surpreendentemente, os judeus cometeram o único pecado mortal de não possuírem um território. O resto é o resultado de preconceitos vários que paulatinamente foram tomando forma nas mentes mesquinhas dos seus carrascos. Jean Paul Sartre qualifica o antissemitismo de snobismo dos pobres. A razão, diz, é que a questão preocupa apenas os ignorantes para quem o antissemitismo caminha de braços dados com a valorização de si próprio.

Esgrimem-se assim os argumentos de que os judeus têm mais dinheiro à custa de práticas comerciais desonestas e que estes acedem ao poder pela via de eleições com o único fito de corromperem o sistema do seu âmago. O arrazoado grotesco desagua numa visão minimalista e preconceituosa daquele povo. A luta antissemita acaba por redundar num combate em que vencidos e vencedores não sabem porque lutam. Afinal, se o problema não encontra nenhuma justificação societária plausível, a razão do conflito queda-se pelo “ele é judeu”.

Se filosoficamente a questão se formula em tais termos, historicamente tudo se resume à criação de um estado de Israel defendido por uns e odiado por outros. A questão remonta ao fim da segunda guerra mundial e à descoberta dos horrores do holocausto. Quando, em 1947, a ONU se ampara da questão cristalizam-se duas posições divergentes. Se os judeus aceitam, sem mais, a divisão do Estado da Palestina, os representantes árabes palestinianos rejeitam qualquer traçado fronteiriço no seio do seu território. Enquanto os primeiros fazem valer o argumento das suas origens no território da palestina e o da necessidade de um território, os segundos recusam pagar a integralidade do preço da barbárie cometida contra os judeus de Europa. A verdade é que o estado de Israel existe, desde Maio de 1948, tal como a filosofia antissemita.

A emergência social consiste, hoje, em reiterar a imbecilidade da questão judaica. Se outrora esta perseguição era perniciosamente organizada a nível estatal, hoje, emergem na cena internacional atores dificilmente identificáveis. Os nazis dos dias de hoje não discursam no reichtag, nem tão pouco dão a conhecer ao mundo os seus propósitos racistas. A matança organiza-se doravante no silêncio, pacientemente, tirando partido de uma identidade desconhecida.

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