25 Abril 2015      11:09

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RAMELAU

Do cimo do Monte Ramelau vemos o mundo mas o mundo não nos vê a nós.

Do cimo do Monte Ramelau olhamos o infinito que nos retribui o olhar sem que sejamos percebidos. Na montanha mais alta de Timor-Leste, imponente e impávida, do alto dos seus 2963 metros de altitude, olhamos ao redor o tudo que é a imensidão total. Olhamos, sentados, o percurso percorrido até ao cume, revemo-nos na subida. Revemos todo o nosso percurso, este e o de vida e miramos a imensidão total agora que o Sol já rompeu no horizonte.

A história do Monte Ramelau é a história de cada um de nós, do nosso percurso trilhado na vida. É a história de séculos de um povo, é a história de sofrimento, de lágrimas, de sorrisos e de esperanças. É o culminar de um história contada às crianças, repetida pelos adultos e lembrada na velhice. Nos rostos do povo timorense queimados pelo Sol vê-se a sombra do Anos e anos passam e o Ramelau não mudou. Abaixo de si, tudo mudou mas em cima, atrás das nuvens, as rochas, as pedras, as árvores centenárias são as mesmas, indiferentes…

O Ramelau esconde a história de Timor-Leste.

Quantos percorreram os seus trilhos para chegarem ao topo, na ansiedade da luta, nos tempos do silêncio. O nascer do sol mantém-se, dia após dia, por muito que a noite teime em não acabar. Subindo de Hato Builico, o percurso faz-se de carro, preferencialmente jipe, até à plataforma. A partir daí, o portão, um pequeno santuário e inúmeras escadas que dão lugar a um percurso cada vez mais íngreme, caminhando só de lanterna em punho, pelos trilhos já marcados daqueles que o fazem todos os dias e os de fora fazem uma vez, os mais resistentes duas vezes. Num intervalo de dez anos, o caminho não se alterou, os mesmos trilhos, as mesmas imagens fotografadas na memória.

À medida que o sol começa a despertar algures no infinito bem longe, onde ainda não se verá durante muito tempo, os seus raios despontam no lado oriental do oriente mas não se veem. O que se vislumbra já é a pequena capela construída em madeira e que alberga a devoção e a oração. Os seus bancos são feitos de troncos finos de madeira, prontos a acomodar os peregrinos que sobem as ruas trilhadas por outros iguais a si.

O caminho ainda é longe. Falta meia hora no percurso de um percurso já feito de tão longe. As pedras avolumam-se numa carreira feita pela chuva e pela força da enxada artesanal. O ar torna-se mais pesado, difícil de respirar. Os pulmões enchem-se de coragem para avançar dois passos mais mas lutam quase em vão com a rarefação. O frio, numa brisa quase de gelo, amacia suavemente a pele do rosto e torna os movimentos em câmara lenta. Todos os gestos se tornam lentos e difíceis.

Envolvidos em casacos quentes como se de um longo inverno se tratasse, os caminhantes sentam-se na mais alta plataforma, rodeados de velas, de um frio intenso, protegidos pela imagem de N. Senhora da Conceição, ladeados por uma velha placa, gasta do tempo e enferrujada pelas chuvas, onde se lê a frase de Camões n’ Os Lusíadas que “cujo alto império o Sol, em nascendo, vê primeiro.” Sentados, aguardam o nascer do dia, mais um igual a tantos já passados. Igual àquele que um dia viu chegar caravelas a Lifau, desenhadas a branco e a vermelho no horizonte, igual ao outro que viu a separação entre firakus e kaladis, de lutas e de pactos de sangue entre liurais. Igual ainda àquele dia em que D. Boaventura se revoltou em Same e que D. Aleixo Corte-Real lutou contra os japoneses em Ainaro. Será um dia como tantos outros, os que viram as invasões na 2ª Guerra e em 1975 chegarem, que viram a capital partir de Lifau para Díli e as Flores serem trocadas por Maubara.

Do alto monte vê-se o mundo que conhecemos, no meio do silêncio ouvem-se os momentos tristes e negros da história, de uma história que não se apaga e, no cimo do monte, se recorda. É nesse sol, nesses raios de luz dourada, que o escuro da noite é abafado e se desvenda a alegria de um sorriso breve, do aroma colorido das sementes do café, da alegria do resultado do referendo a 30 de agosto de 1999 e a alegria da independência a 20 de maio de 2002, dos caminhos em todas as montanhas, nos olás e nas corridas à estrada para ver passar os estranhos. É nesses raios, que se repetem todos os dias e que nem as nuvens abafam, que se molda o futuro de um país, é neles que se revisita a memória coletiva, que se guardam em cestos de vime todas as recordações como se lições de futuro fossem, valiosas e geracionais.

E é, ainda sentados, em silêncio, que aguardam os últimos raios de sol a libertarem-se das montanhas onde tudo parece uma linha única, ao fundo, no horizonte antes do regresso, numa repetição dos gestos que são os mesmos que já foram, no novo dia a nascer, na renovação da esperança a surgir. Aí, nesse momento e nesse dia, tudo o que sabemos é que no Monte Ramelau vemos o mundo mas o mundo não nos vê a nós. Conhecemos o Monte Ramelau e olhamos o infinito.

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