27 Maio 2016      16:12

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A GRAVATA AMARELA

Eu desconfio que algo de muito grave se passa, sempre que um âncora de telejornal aparece com uma gravata que não combina com o fato. Quando tal gravata também destoa completamente do cenário, então, eu corro a limpar o bunker, a estocar água e comida.

Brincadeiras exageradas à parte, não podemos mais nos enganar: em televisão, cada segundo do que vai ao ar e cada centímetro do que é visto pelo telespectador são calculados ao detalhe. Nada pode estar fora do lugar. O tipo de experiência porque passamos ao assistirmos à TV é mais exigente do que parece de início.

O célebre teórico canadense, Marshall Macluhan, foi um intelectual visionário, cuja obra explicou e definiu os mecanismos pelos quais os meios de comunicação de massa, em especial a televisão, operam influência sobre o nosso entendimento da realidade e, por conseguinte, exercem enorme poder sobre os nossos posicionamentos ante os fatos. Macluhan prova que a influência dos meios de comunicação de massa sobre as nossas consciências pode superar, e muito, a influência da escola ou da igreja. Isto faria da televisão, especialmente, um instrumento de enorme eficácia na determinação daquilo que devemos sentir e pensar, segundo os interesses da emissora do sinal a que assistimos.

Em sua obra de 1964, “Understanding Media: The Extensions of Man” (No Brasil, “Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem”), este intelectual demonstrou que, diferentemente da fotografia, das artes plásticas e do cinema, a TV precisa de que áreas do cérebro responsáveis por funções motoras sejam mobilizadas para que suas imagens sejam percebidas por nós em sua integridade. Isto, porque, enquanto nas outras artes audiovisuais a imagem aparece inteira e os olhos fazem uma leitura da esquerda à direita e a sensibilidade faz o seu trabalho de interpretar a obra, para assistirmos à TV os olhos precisam combinar mecanicamente milhares de pontinhos luminosos até que, estes, juntos, formem a imagem, como num difícil quebra-cabeças.

O que as antenas captam é um conjunto desorganizado destes pontos. O tubo de imagem os decifra e os organiza, enviando à tela o mosaico de pontos brilhantes que, acredite, ainda não é a imagem que vemos. O trabalho de a tornar inteligível é feito pelo nosso cérebro. Este exigente exercício cria sensações que superam a nossa sensibilidade. Boa parte das sensações de conforto ou de incômodo que sentimos ao ver uma novela, um programa de auditório ou um telejornal é produzida pela resposta que o cérebro nos envia, após passar pelo difícil trabalho de traduzir o que emana da tela da TV.

Assim, as sensações de tristeza ou de alegria que uma cena nos inspira são potencializadas pelas respostas bioquímicas do cérebro. De facto, são estes efeitos que nos tornam tão viciados na experiência de ver tevê e, acima de tudo, são estes estímulos que dotam a televisão de um poder inalcançável por outros meios de comunicação. Macluhan, além de grande teórico, era um excelente criador de frases de efeito (sem lhes retirar o valor científico) e é dele a máxima “o meio é a mensagem”, cuja formulação deriva das considerações que eu tentei rapidamente esclarecer neste artigo.

Ao longo do século XX, muitos semiólogos demonstraram que, a partir das novas tecnologias da informação, tudo o que se vê ou se ouve no cinema ou na televisão é escolhido pelos criadores em função de sua força simbólica. Nada é gratuito, desde um objeto aparentemente sem importância a compor o cenário, até o adereço no cabelo da atriz. Estas artimanhas ficam mais evidenciadas na publicidade e no videoclipe, porém elas estão em toda e qualquer produção audiovisual hoje em dia, inclusive nos telejornais.

Sendo assim, precisamos ser também alfabetizados em semiótica, não apenas para conseguirmos ler na totalidade a todas as obras audiovisuais contemporâneas a que assistimos, mas, principalmente, para podermos nos defender das instruções subtis que podem, como demonstrou Macluhan, nos fazer compreender e agir sobre o mundo que nos cerca a partir de vontades alheias às nossas.

Portanto, eu aconselho vivamente a todos e todas que, quando virem um apresentador de telejornal surgir na tela com uma gravata amarela nada adequada ao conjunto cenográfico, assustem-se. Não se trata apenas de um deslize do profissional responsável pelo figurino. Há um objetivo: amarelarem-se todas as notícias exibidas naquele dia.

Ao fim do telejornal, você provavelmente estará a compreender o mundo com um filtro desta cor. Cansado com aquele enorme trabalho de organização das emanações da tela, seu cérebro preferirá rir da gravata ao considera-la de mau gosto. Porém, todas as vezes que a cor amarela reaparecer ao longo do dia, ou mesmo da semana, ela significará algo mais do que somente o brilho, a alegria e o calor. Até porque, durante o telejornal, a cor amarela apareceu mais algumas vezes, em outras situações reportadas. E lá está: “o meio é a mensagem”. Delicada e perversamente, aprendemos algo sorrateiro, sem o sabermos. O amarelo já não é apenas uma cor, é um símbolo a serviço de uma fonte de poder político.

Portanto, é assim, leitor amigo: se a gravata do apresentador tiver nada a ver com o fato que ele está a usar, desligue a tv e corra a limpar o bunker. Algo de muito pior do que um fato desconexo com a gravata está a acontecer à sua frente e você não se dará conta disto facilmente. Se vier a percebê-lo, desligará a tv na mesma, porque via de regra estas mensagens correm ao largo do seu bem-estar. De toda sorte, sob o risco de pensar com a cabeça de outrem, melhor evitar o contacto visual com a tela pontilhada. O que os olhos não veem o coração não sente aplica-se perfeitamente a esta situação. Até porque, ninguém merece contemplar horas a fio uma gravata amarela quase fluorescente, não é mesmo?!

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