13 Outubro 2016      14:34

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CARTA ABERTA DE UMA JOVEM A JORGE MÁXIMO

Caro Sr. Jorge Máximo, venho falar em nome de todas as meninas. Eu sei que é taxista e permita-me que o trate por senhor desconhecido porque não é digno de um nome próprio, para mim, neste momento. Perdoe-me.

Eu sou uma menina. A minha melhor amiga é uma menina. E quer saber? Somos duas meninas virgens. A minha mãe é uma menina e a sua também mas ambas possuem uma diferença em comum: não são meninas virgens.

Atrever-se-ia a expor a ideia à sua mãe que deveria ser estuprada?

O meu pai tem uma filha virgem e, mais uma vez, uma menina. Ousaria dizer-lhe que devia ser violada?

Clarifique-me. Clarifique-se, por favor. Eu mereço ser violada? Porquê? Explique-me, eu sou uma menina e talvez não saiba distinguir o bem do mal e o que devo ou não aceitar porque além de virgem, posso ser ingênua e imoral.

Explique-me também porque nos mencionou. Porque mencionou as mulheres numa manifestação que se tratava de táxis?

Esclareça-me o princípio de eu portar uma aversão enorme à palavra violação que é tão forte, ameaçadora e assustadora que apenas o simples facto de a ouvir, escrever ou soletrar me causa um transtorno desagradável, uma repugnância, um choro e um pavor enorme; a razão pela qual eu tenho que ligar a alguém quando estou a ir para casa durante a noite; porque eu tenho que pretender que estou a utilizar o meu telemóvel quando passo por um grupo de meninos ( virgens ou não ), enquanto apresso o meu passo e oiço os seus assédios e os engulo a seco; e, o mais consciente, justifique a ansiedade e insegurança constante da minha progenitora sempre que saio.

Eu sou uma menina, senhor. Onde poderei procurar pela sua dignidade, educação e pelo respeito que a sua mãe lhe transmitiu?

Nós somos meninas. O nosso corpo foi desenvolvido para podermos oferecer continuidade à vida humana. Aos meninos e às meninas. Espero que não se esqueça que todos nascemos virgens.

Nós somos meninas e deve-nos respeito. Nós somos humanos, seres racionais e sentimos, tal como o senhor taxista. Não nos classifique como se fôssemos uma criatura inferior ou superior aos meninos. Somos todos iguais, não vim discutir tal ideia. Igualdade, por favor.

O seu comentário foi um insulto grave. Não foi triste, na realidade, não existe um adjetivo tão baixo que o possa descrever. Estou revoltada e sem esperança.

Não lhe desejo mal algum até porque cada um proporciona o que tem e eu viabilizo-lhe um pouco de feminismo e amor próprio, mas, não se preocupe, não aceitarei o seu machismo e ódio.

Peço-lhe, por favor, que não nos compare com táxis. Não nos insira nem compare com a Uber e a Cabify pois não somos meios de transporte. Não nos compare a leis mas já que o fez, eu corrijo-o: As meninas (virgens ou não) são como as leis, devem ser respeitadas. As meninas são como as mães, devem ser respeitadas. E, por favor, não quero perder a virgindade à força. Não quero ser vítima de uma violação.

Eu sou uma menina, senhor desconhecido.

Beatriz Velez, 14 anos. 

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