23 Maio 2020      09:57

Está aqui

Tempo novo

Este é um tempo novo. Um tempo que se Renova. Não é o tempo em que me sinta mais criador, nem o tempo em que a minha imaginação pulse. Sinto-me como que um inútil que passa o dia a fazer coisas que, no final, passam a ter alguma utilidade.

Este é um tempo novo que não queria conhecer. Desde o dia primeiro que sigo as notícias. Vejo diariamente as coisas que me contam os amigos, os seus pensamentos, as suas divagações, a beleza das suas criações.

Talvez mais separados que nunca, reencontrá-lo-nos na fibra ótica, nos bits e nos bytes, nos desabafos e nos sorrisos virtuais.

É bom sorrir, sentir que o invisível não nos consegue separar. Pode levar muitos de nós, já levou e, infelizmente, não nos veremos mais. Muitos de nós nem nos despedimos. Não nos foi possível. O tempo vai passando. As horas do dia passam sem serem iguais às horas do mesmo dia no ano passado. Agora, as horas são todas iguais, as rotinas mudaram. Tudo Renova. Há na natureza, que pode nos últimos tempos respirar, talvez, uma nova vida.

Sinto-me, às vezes, perdido. Sinto-me como se não pudesse caminhar no passeio vazio sem trazer comigo, na sola dos sapatos, o vírus que nos separa.

Tantas outras vezes, atrás de uma máscara que me protege a mim, que te protege a ti e que nos afasta, cuidando. Não nos vemos a sorrir. O sorriso aberto parece coisa do passado. Certamente um dia destes, sorrirá. Um dia mais cedo, a gente tirará as máscaras como há cem anos também aqueles que por isto passaram, tiraram.

Deixam-me os dias do tempo novo a pensar. Deixa-me a atual situação a redefinir as prioridades e a adaptar a um novo ritmo, a um rumo paralelo que não era planeado.

Tenho mais plantas em casa do que alguma vez tive. Nesta mesma casa onde pouco tempo passava e que agora, mais que nunca, sinto como o meu lar, tornei-me parte dela.

Passei a ter um brio especial em chamar-lhe lar. Os meus sonhos já a incluem e o espaço exterior onde andava naturalmente tornou-se estranho. Não sei explicar. Será por falta de hábito de cumprir as minhas rotinas passadas? Tenho saudades delas mas não as quero fazer agora. Encontrei outras que me ocupam, encontrei outras que me regram.

O tempo Renova. O vírus muta-se e nos mutamo-nos como ele.

Tenho saudades tuas, Portugal, especialmente do meu Alentejo, da minha serra. Esta última, lenta e suave nos seus ventos, nas suas chuvas e no renascer das suas árvores, felizmente, pouco lhe interessa que algo novo, neste tempo desconcertado, percorra o mundo. Até lá não o levaram. Espero que não o levem. O vírus não anda sozinho, e não quero ser eu a levá-lo.

Não sei quando verei o verde claro e escuro. Nem menos sei quando verei as cores do amarelo torrado do Alentejo. Talvez te veja nos dias dias de chuva, quando a calma voltar e o tempo novo nos deixar respirar a descoberto.

Hoje, no fim de maio, já me habituei a passar 23 horas e meia das vinte e quatro que o dia tem, no mesmo espaço. E gosto deste espaço.

Gosto de criar e gosto de conversar. Há tempo para tudo. É um tempo novo.

Um tempo que se Renova. E nele, o pensamento foge para os que se dedicam, aqueles que se sacrificam e aqueles que já não estão e os que continuam a estar.

Pensamentos vagos num tempo novo. Pensamentos num tempo, prolongado... sem princípio nem fim.

Tudo Renova.

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