2 Dezembro 2019      10:57

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Saúde: o Estado que queremos

O estado da saúde em Portugal é sintomático da impossibilidade política de escolhermos o melhor de dois mundos. O PS optou por comprar os votos dos funcionários públicos com um horário de trabalho reduzido e um salário mínimo superior ao dos trabalhadores do privado, os portugueses optaram por votar no PS, e o Estado optou por comprometer os cuidados de saúde para pagar os votos comprados. A política é feita de opções.

Por mais solidário que eu esteja com o idoso cuja consulta foi adiada um ano por não ser considerada prioritária, ou com quem tem de esperar o período recorde de quatro anos por uma primeira consulta, período que já julgávamos extinto em países da União Europeia, tenho de aceitar que foi essa a nossa opção coletiva e que é esse o preço a pagar para que uma parte da população portuguesa traga para casa mais uma mão cheia de euros no final do mês e saia do trabalho uma hora mais cedo no final do dia.

Condenámos parcerias público privadas da saúde que mostraram eficácia e boa relação custo-benefício por mero preconceito ideológico. Ao mesmo tempo que o Serviço Nacional de Saúde tem um défice anual de mil milhões de euros, acrescido de três mil milhões de euros de dívidas aos fornecedores, situação financeira apenas comparável à do momento em que o PS foi forçado a pedir intervenção da troika. Ao mesmo tempo que encerrámos a urgência pediátrica do Garcia de Horta por falta de médicos. Ao mesmo tempo que deixámos morrer a senhora que foi transferida do Hospital de Gaia para o Hospital da Feira, depois de dez horas no Serviço de Urgência sem qualquer vigilância ou monitorização. Ao mesmo tempo que, no Centro Hospitalar Universitário do Algarve, um senhor esperou dois meses pelos exames que o permitiriam prosseguir a quimioterapia, vindo os exames a chegar já depois da sua morte. São opções.

Os portugueses pagam do seu bolso pela saúde quase o dobro da média dos países europeus, fazendo com que muitos tenham de optar entre os cuidados de saúde e outros bens essenciais. Esta situação, que já foi alvo de crítica da Comissão Europeia, é curiosa e bizarra num país de matriz socialista, em que os cuidados de saúde gratuitos deveriam ser o aço e o betão das políticas públicas. Em política, nem tudo o que parece, é.

O PS pede maior produtividade no Serviço Nacional de Saúde, o PCP critica os encerramentos, e o Bloco de Esquerda pede melhor gestão e orçamentação. Todos estão certos nas suas teorias. O problema é que também todos se mostram há quatro anos incapazes de as concretizar.

 

 

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