7 Dezembro 2019      12:31

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Quantidade ou qualidade

Qualquer coisa, quando fosse necessário, servia para Cândido apresentar a sua versão das coisas que queria. Quase doutorado em Química, o estudante de terceiro grau, ofuscava com o seu discurso verborreíco qualquer pessoa que o rodeava.

Pouco percebia de coisas banais, mas tinha, ou fazia parecer que tinha, um extenso conhecimento sobre um pouco de tudo e aprofundado de nada. Isto, sabemos nós, eu e o leitor. O restante público que interagia com Cândido nada percebia das coisas de que falava e, por isso, podia de forma eloquente, expor a sua teoria completa.

Paralelamente ao seu Doutoramento, em Química quase Física, era cobrador de impostos e vendia enciclopédias. Tinha bastante lábia e sabia o que dizer e quando dizer. Qualquer coisa servia para qualquer pessoa. Assim pensava e assim agia quando falava.

Porém, Cândido, um dia... terminada a tese de Doutoramento, teve de a defender perante um júri de pessoas que percebiam mais de química do que ele próprio e os seus quarenta clones se os tivesse.

A tese era rica em quantidade e fraca em qualidade, isto querendo dizer que foi um falhanço. Por muito que falasse, não convencia ninguém no painel e o resultado, depois de cinco horas a apresentar qualquer coisa, qualquer argumento vazio...

O júri saiu da sala e voltou uma hora depois. Reprovado por unanimidade, sem pestanejar, Cândido, saiu da sala cabisbaixo e sem pinga de sangue no corpo.

Não tinha qualidade e a quantidade de palavras fugira-lhe. Nunca mais se disse especialista em química. Queimou-se.

A partir desse dia, desdoutorado, passou a ser só cobrador de impostos e vendedor de banha da cobra... além das enciclopédias.

E, pasme-se, quando vendia estas últimas, arrancou de todas a letra Q.

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