16 Janeiro 2026      20:01

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Presidenciais

No espaço de duas semanas iremos escolher o nosso próximo Presidente da República. A História demonstra que ter o Presidente certo num momento difícil é essencial para o prestígio do nosso regime democrático e para a estabilidade do país.

Provavelmente estamos perante a campanha presidencial mais medíocre das onze já realizadas. A responsabilidade não recai apenas sobre os candidatos que se apresentaram a sufrágio, mas também sobre o sistema mediático instalado, que privilegia reações rápidas, precipitadas e quase sempre desprovidas de conteúdo. No final do dia, este ambiente pouco contribui para esclarecer os cidadãos sobre quem apresenta, de facto, as melhores propostas para o cargo que está a ser eleito e não para outro qualquer. Fica mesmo a dúvida se alguns candidatos conhecem verdadeiramente os poderes presidenciais, para além da chamada magistratura de influência.

Esta mediocridade torna-se ainda mais evidente quando comparamos o atual panorama com o de antigos Presidentes da República ou mesmo com candidatos de eleições passadas. Basta recordar quem eram os quatro candidatos nas presidenciais de 1986, ou figuras como Manuel Alegre ou Sampaio da Nóvoa, para perceber o empobrecimento do debate político e cívico a que assistimos hoje.

Neste contexto, parece-me particularmente importante recordar e enaltecer Jorge Sampaio. Se houve algum Presidente da República a quem eu possa chamar “o meu” Presidente foi Jorge Sampaio. O humanismo, a seriedade e o sentido de Estado que sempre demonstrou ao longo dos seus dez anos de mandato tiveram um momento alto na ação decisiva que promoveu em prol da libertação e da independência de Timor-Leste. Essa iniciativa foi a prova de que um país pequeno como Portugal pode ter um impacto relevante e decisivo nas relações internacionais quando age com princípios e coerência.

É também de salientar que foi da sua visão política que nasceu o Grupo de Arraiolos, um espaço informal de reflexão entre antigos Presidentes europeus, que reforça a ideia de uma presidência ativa, pensante e comprometida com o futuro da democracia.

A Presidência da República não é um palco de protagonismo pessoal nem um trampolim político: é um cargo de responsabilidade, equilíbrio e visão. Num tempo de campanhas

pobres e debates superficiais, recordar exemplos como o de Jorge Sampaio ajuda-nos a perceber que é possível e necessário fazer muito melhor.

Revisitei recentemente o debate entre Freitas do Amaral e Mário Soares, o confronto decisivo da segunda volta. Apesar de o país viver um momento politicamente crispado, havia naqueles dois homens um claro sentido de elevação no debate público, uma consciência do peso histórico do cargo a que se candidatavam e um profundo respeito pelas instituições democráticas, qualidades que hoje parecem em falta.

Essa diferença não é apenas geracional, é sobretudo política e cívica. Revela uma mudança na forma como encaramos a Presidência da República: de um espaço de ponderação e autoridade moral para um terreno de ruído, imediatismo e cálculo mediático. Cabe-nos, enquanto cidadãos, exigir mais, mais preparação, mais densidade, mais sentido de Estado. Porque escolher um Presidente da República é escolher muito mais do que uma personalidade: é escolher a forma como nos representamos a nós próprios enquanto democracia.