10 Abril 2020      11:35

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Os Heróis destes dias

Há dois tipos de heróis neste novo mundo. Há aqueles que todos os dias saem de casa para cuidar que nada falte aos outros. E depois há aqueles que todos os dias ficam em casa e que epicamente se mantêm dentro dela, mesmo nos mais bonitos dias de sol. Para que nada de mal lhes aconteça a si ou aos outros.

Dentro de casa em tempo de férias, obstinado na sua missão de apenas sair quando estritamente imprescindível, este tipo de herói inventa mil e uma coisas para fazer: entretém-se a gravar vídeos no Tik Tok, a fazer pão na Bimby ou a mudar a mobília de lugar. Se há coisa que o tipo de herói caseiro tem neste período de férias forçadas, é tempo.

Também eu não sou exceção. Com o meu tempo disponível, dei por mim a rever as fotografias dos projetos da Sociedade do Bem. No meio delas, encontrei as fotografias dos postais que os miúdos de uma das turmas fizeram numa das nossas sessões, para oferecer aos seus melhores vizinhos.

A ideia era levar aqueles miúdos a inundarem a caixa de correio dos vizinhos com desenhos e mensagens positivas que alegrassem o seu dia:

- "Vizinha Maria, adoro os seus bolinhos."

- "Vizinho Manel, peço desculpa pelo barulho."

No meio dos postais, o do André tinha uma mensagem diferente das outras:

- "Por favor não façam mal ao gato. Nunca mais".

Lembro-me de ele me contar que os miúdos da casa ao lado maltratavam o seu gato sempre que o viam.

Em época de distanciamento social, nunca mais tive notícias do André, nem do seu gato, nem dos vizinhos. Mas imagino que ultimamente, tal como o André, também o gato esteja mais caseiro.

Quando tudo isto passar e os heróis voltarem a passear nas ruas, a sentarem-se nos bancos do jardim ou a encher o recreio da escola com as suas gargalhadas, espero que todos nos aproximemos mais uns dos outros.

E nessa altura, em vez deixarmos postais nas caixas de correio dos nossos vizinhos, irei sugerir uma nova atividade: batermos-lhes à porta para lhes levarmos nós uma fatia de bolo ou para lhes pedirmos desculpa pessoalmente pelo barulho.

Talvez a distância tenha servido afinal, para sentirmos falta daqueles que sempre nos habituámos a cumprimentar assim que saíamos à rua.

Talvez depois de tudo isto, sejamos melhores uns para os outros e estejamos capazes de dizer o quão felizes estamos por poder voltar a partilhar a rua.

A nossa rua. A rua do André, que talvez já nem tenha de pedir aos seus vizinhos: por favor não façam mal ao gato. Nunca mais.

 

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