28 Junho 2024      17:53

Está aqui

Os dilemas da vida autárquica

Dizia um amigo, com fundamento, que para ser bom autarca é necessário, antes que tudo o resto, gostar da terra. É preciso senti-la, perceber quais as suas virtudes e debilidades, saber ouvir as pessoas e tentar resolver os problemas que vão surgindo diariamente.

Este é um esforço constante, no sentido de dar respostas concretas e avançar na resolução dos assuntos pendentes. É uma tarefa interminável, que se assume como um desafio cada vez mais exigente, tendo em conta a complexidade, também ela crescente, de tramitações e procedimentos.

Cada terra tem as suas particularidades e cada uma apresenta as suas próprias demandas. Conhecer as idiossincrasias de cada território, para desenvolver políticas de proximidade, é um fator preponderante. Isto exige dos eleitos, para além de um conhecimento profundo do terreno, uma cada vez maior e mais exigente preparação técnica para a definição de soluções. Longe vai o tempo em que bastava somente a boa vontade. Nos dias que correm, é preciso mais e essa exigência leva à necessidade contínua de aprendizagens nos mais diversos sectores.

Por outro lado, as redes sociais vieram democratizar, em certo sentido, as discussões em torno dos problemas que surgem em cada freguesia, em cada concelho, em cada lugar. Todos podemos expressar as nossas opiniões e fazer valer o nosso juízo, perante o que consideramos correto ou incorreto e questionar, também deste modo, o poder político local sobre as opções que foram tomadas.

Há quem não concorde muito com este cenário de comentários e respostas, neste formato. Dirão que há lugares próprios para o efeito.

Como diz a sabedoria popular, cada cabeça, sua sentença. No entanto, esta democratização, se por um lado fomenta a liberdade de expressão, por outro, permite que em muitas circunstâncias, quem usa da “palavra” o faça sem o mínimo conhecimento sobre os temas que podem ser alvo de atenção ou crítica. Por vezes, fala-se somente por falar, para se alcançar algum protagonismo, para criar alguma polémica ou para tentar obter algum dividendo sobre uma questão pendente, que nada tem a ver com o que é “postado” por algum canal oficial nas redes sociais ou nas páginas pessoais de cada autarca.

Obviamente que nem todos temos que ter a mesma opinião sobre decisões tomadas. O direito à livre opinião está consagrado na Constituição e essa é uma conquista que não merece qualquer observação. Antes pelo contrário. Deve ser estimulada. Mas devemos ter em atenção na forma como expressamos as nossas reivindicações. Muitas vezes, cai-se no ataque pessoal, na insinuação, no fomento do boato e na promoção da intriga. Quantas opiniões são expressas por detrás de perfis falsos, somente para atacar quem está a fazer o seu trabalho!?

Penso que estas atitudes devem merecer alguma reflexão. Não são os direitos de opinião que estão em causa, mas muitas vezes a forma ou formas utilizadas para fazê-lo. No meu caso pessoal, as redes sociais são um excelente canal de comunicação, sem obstáculos, para o esclarecimento de dúvidas ou pedidos de informação.

Estou sempre disponível para o efeito e tento responder sempre com alguma brevidade. A verdade é que não se consegue fazer a distinção entre o autarca e o cidadão comum, que neste caso se fundem temporariamente na mesma pessoa, o que obriga a uma permanente atenção e disponibilidade para as respostas. A exposição é grande e a função política confunde-se muitas vezes com a esfera pessoal.

Mas infelizmente, talvez também porque se aproxima mais um período eleitoral, nos últimos tempos, tenho sido invadido por mensagens, muitas vezes oriundas de perfis falsos, com ameaças, ofensas e acusações, que independentemente das motivações dos seus autores, revelam que as redes sociais também têm um lado bem perverso, muitas vezes carregado de ódio.

Não se tratando de um processo de vitimização, pois calculo que o mesmo tipo de situações ocorra com outros responsáveis políticos, da esquerda à direita, estes fenómenos fazem-nos pensar sobre a forma como alguns olham para nós, que nos dedicamos ao serviço público da melhor maneira possível, sabe-se lá com que sacrifícios. Ossos do ofício, pode dizer-se.

É certo que existe hoje sobre os políticos um clima de suspeição e todos acabam por sofrer com os rótulos que são, muitas vezes, injustamente associados a uma grande maioria. Paga muitas vezes o justo pelo pecador.

Perante tais situações, há quem se sinta injustiçado e sem ânimo para levar a missão em frente. Mas outros há que, para além das vozes dos “velhos do Restelo” ou de profetas da desgraça, não se inibem em continuar a fazer o seu trabalho, da melhor forma possível, atentos às críticas construtivas e às opiniões fundadas. Ninguém é dono da razão e temos que saber escutar. Por vezes, mais alternativas ajudam a construir uma solução eficaz para cada problema em concreto. E é disso que se trata. E é neste lote que me incluo.