20 Julho 2019      10:30

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O relâmpago

Naquele tempo, quando os ventos andavam pelo Mundo e ainda tinham corpo físico, quando a chuva tinha a forma gasosa e só acariciava levemente as plantas, os rostos dos animais e as terras do mundo. Naquele tempo, quando ainda não havia seres humanos nem casas, os elementos naturais viviam ainda em livre vontade e eram como que espíritos e pessoas que navegam pelas terras do mundo, ao sabor da natureza.

Naqueles dias, que não se dividiam nem em dia nem em noite, surgiu pela primeira vez no mundo um sentimento até aí desconhecido. Nunca, até esse momento, tal se tinha sentido nem nenhum dos elementos ou animais sabia do que se tratava.

Pela primeira vez, surgiria o medo. E surgiria vindo do elemento mais improvável e inusitado, de um relâmpago.

O relâmpago, quando nasceu, vivia debaixo de um pequenino arbusto e era uma luz muito mínima. Certo dia, aproximou-se dele o vento, numa forma muito feia e muito velha. Ora, todos os outros relâmpagos mais velhos e maiores conheciam já o vento na sua forma muito velha e muito feia. O pequeno relâmpago não conhecia e quando o viu, começou o medo, esse sentimento que não existia, a crescer dentro dele e fazendo com que aumentasse de forma e crescesse e se tornasse cada vez maior. À medida que o relâmpago crescia, a sua luz tornava-se maior, mais potente e ele, como o vento, cada vez mais assustador. Por tanto medo que o relâmpago tinha, a sua barriga começou a fazer barulhos estranhos e ao fundo começaram a ouvir-se estrondos tão fortes que o próprio vento se assustou. O arbusto onde o pequenino relâmpago outrora estivera tornava-se cada vez mais pequeno e, inevitavelmente foi consumido pelas chamas expelidas pelo relâmpago, fruto do seu medo, que o transformaram em fogo. Todo o arbusto ardeu e todas as coisas onde o relâmpago tocava, a partir daí.

Ao longe, o eco do medo do relâmpago, o trovão, era cada vez mais ameaçador e cada vez mais transformava os elementos à sua volta. O vento, acossado e sem saída, receoso da sua segurança, não teve outra solução que não fosse transformar-se e tornar-se invisível. A pobre água que tão suave era e tão delicada, desatou num pranto e começou a chorar, passando a ser líquida a partir desse dia.

Ainda hoje, todos os elementos têm medo do relâmpago. Mais até do trovão, que é o som amedrontado daquele primeiro.

Ainda hoje, quando os vemos e ouvimos, podemos também ver a chuva a chorar desalmadamente e o vento a tentar fugir e esconder-se.

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