23 Outubro 2017      17:14

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O MAIOR PROBLEMA DO ALENTEJO É O DESPOVOAMENTO

Luís Godinho, tem 47 anos, é jornalista, correspondente da SIC no Alentejo e colaborador do Diário de Notícias. Realizador dos documentários "O Salto", melhor filme português a concurso no Festival Internacional de Curtas Metragens de Faro (2017), "Chainho", "Aldeia Eterna" e "Marfim". Coautor do livro "António Arnaut Biografia", sobre o "pai" do Serviço Nacional de Saúde. Motivos de sobra para uma conversa com ele.

Tribuna Alentejo: O documentário "O Salto", agora premiado, não é uma estreia sua no trabalho documental. Há histórias no Alentejo que arriscam a nunca virem a ser contadas. É essa evidência que o move? E o central do seu trabalho em documentário são figuras objetivas da sociedade alentejana, símbolos geracionais ou o Alentejo em abstrato que é preciso conhecer melhor?

 
Luís Godinho: "O Salto" não é, de facto, o meu primeiro documentário. Esse primeiro trabalho chama-se "Chainho", data de 2015, teve estreia no cinema de Santiago do Cacém já foi exibido na RTP 1, estando previstas novas projeções previstas para o Museu do Fado e Fundação Oriente. É um filme sobre a singularidade de um dos nomes maiores da cultura portuguesa, António Chainho, que nasceu numa pequena aldeia do concelho de Santiago do Cacém e cuja arte o levou aos grandes palcos do mundo.
 
Depois surgiu "Aldeia Eterna", gravado em Melo, a cidade natal de Vergílio Ferreira, um trabalho curioso que me deu muito prazer fazer, no qual desafiei a população da aldeia a ler excertos da autobiografia de Vergílio Ferreira, que assim se reencontrou com a obra e reconciliou (?) com o escritor. Pelo meio houve ainda mais um ou dois documentários, todos eles com a direção de fotografia de Rui Fernandes, até chegarmos a "O Salto", onde se conta a história de um grupo de jovens eborenses que, como milhares de outros, emigraram em protesto contra a guerra colonial.
 
 
Tribuna Alentejo: A história do país registou figuras alentejanas, incontornáveis na cultura, na literatura e até na política. Temos hoje uma elite em algum desses aspetos no Alentejo ou estamos condenados ao saudosismo?
 
Luís Godinho: Não sou de saudosismos. O António Chainho é alentejano e é o grande mestre da guitarra portuguesa. O José Luís Peixoto é um dos escritores mais notáveis desta nova geração. O Afonso Cruz, não sendo alentejano, é aqui que vive, e ainda recentemente ganhou o prémio Fernando Pessoa. O Luís Marrafa é um coreógrafo com grande projeção internacional. Podia citar também o trabalho do Rui Horta, em Montemor-o-Novo, e muitos outros, sem esquecer a atividade de agentes culturais da região com grande projeção a nível nacional, do Centro Dramático de Évora - convém não esquecer que se tratou da primeira companhia descentralizada depois do 25 de Abril - à Companhia de Dança Contemporânea de Évora.
 
Na música, o António Zambujo é um dos mais destacados cantores a nível nacional. O Cante já é Património da Humanidade. O José Manuel Rodrigues é um dos grandes nomes da fotografia. O João Cutileiro, o Pedro Fazenda na escultura, enfim, pedindo desculpa a tantas e tantas pessoas que não referi, e que deveria tê-lo feito, quero sublinhar que a região tem, de facto, nomes incontornáveis na cultura portuguesa. Assim na política fosse igual.
 
Tribuna Alentejo: Para além do jornalismo e do documentário, publicou recentemente uma biografia do "pai do Sistema Nacional de Saúde"? Como aconteceu querer fazer um trabalho biográfico com António Arnaut? Que alentejano lhe  parece merecer uma biografia e que gostasse de fazer?
 
Luís Godinho: Começo pelo fim. Estou a planear editar em meados do próximo ano uma biografia sobre uma personalidade do Alentejo, um lutador antifascista, mas ainda é cedo para revelar mais pormenores. Antes irá sair um outro livro, cuja escrita estou agora a concluir. Quanto ao António Arnaut, tudo começa com a constatação de que o Serviço Nacional de Saúde foi uma das grandes conquistas do 25 de Abril. A liberdade e a democracia, por um lado, e o SNS, por outro, são duas grandes marcas da revolução. Era incrível, e para mim inaceitável, a inexistência de uma biografia sobre uma personalidade com uma vida tão rica como António Arnaut. Foi meter mãos à obra, juntamente com a Ana Luísa Delgado, coautora do livro.
Tribuna Alentejo: "O Salto" conta a história que de alguma maneira representa perda ou pelo menos privação por algum tempo ao Alentejo dos seus intelectuais. 
Que marcas lhe parecem imprimir essas e outras perdas a esta terra?
 
Luís Godinho: O maior problema do Alentejo é o despovoamento, que se tem acentuado numa dupla vertente: da região para fora dela e da periferia para as cidades, sobretudo para Évora. O poder político tem dado mostras de total incapacidade para atacar este problema, comum aliás a todo o interior do País. É uma emigração justificada, essencialmente, por razões económicas, de falta de emprego e de oportunidades de trabalho, muito diferente das motivações desses jovens que no início da década de 70 do século passado decidiram dar o salto. Foram muitos milhares, por todo o país. Aí estavam em causa razões de ordem política, de recusa a uma guerra injusta e cruel, como todas as guerras, e de fuga a um sistema político opressor.
Tribuna Alentejo: Ser alentejano parece não ser suficiente para manter cá os seus melhores e apesar de assistirmos a alguma dinâmica que até pode alimentar a esperança e a confiança no futuro, o que lhe parece que possa ser feito para estancar a hemorragia da intelligentsia alentejana?
 
Luís Godinho: Mais uma vez, julgo que o problema não é exclusivo do Alentejo mas de todo o interior. Fala-se sempre na necessidade de políticas de discriminação positiva para as regiões do interior mas as boas intenções têm tendência a perder-se nos corredores do Terreiro do Paço. Dou-lhe um exemplo: faz sentido a existência de institutos politécnicos em cidades como Lisboa, Porto e Coimbra, com uma oferta de ensino universitário público como a que atualmente existe? Não seria melhor desloca-los para interior? Outro exemplo: o Aeroporto de Beja, infraestrutura que poderá vir a ter um papel determinante para o Baixo Alentejo. Já o poderia estar a desempenhar, caso o Estado tivesse assumido o objetivo estratégico de o valorizar do ponto de vista económico e empresarial mas foi mais fácil ao poder político lisboeta utilizá-lo como arma de arremesso nas guerrilhas partidárias e, com isso, gerar manchetes na comunicação social. O aeroporto de Beja custou 34 milhões de euros mas existe, foi construído. Só em estudos para o putativo aeroporto da Ota foram gastos 40 milhões e a obra não saiu do papel.
 
Tribuna Alentejo: Considera-se um otimista ou a sua visão crítica, eventualmente ganha profissionalmente, torna-o pouco crédulo com a capacidade das nossas elites?
 
Luís Godinho: Acho que, apesar de tudo, o Alentejo tem dado passos positivos no sentido do desenvolvimento. O cluster aeronáutico - envolvendo Évora, Beja e Ponte de Sor - pode ser um desses exemplos. Tudo o que está a acontecer no regadio de Alqueva, com o surgimento de novas culturas, novos agricultores, novas empresas, novas oportunidades de negócio e de emprego, é também um fator de esperança no futuro. A aposta na cultura, entendida não como polo de desenvolvimento, deveria ser mais forte. E a região tinha muito a ganhar com uma rede de ensino superior (Universidade de Évora e politécnicos) mais proactiva no contexto territorial.
Luís Godinho, 47 anos, jornalista, correspondente da SIC no Alentejo e colaborador do Diário de Notícias. Realizador dos documentários "O Salto", melhor filme português a concurso no Festival Internacional de Curtas Metragens de Faro (2017), "Chainho", "Aldeia Eterna" e "Marfim". Coautor do livro "António Arnaut Biografia", sobre o "pai" do Serviço Nacional de Saúde.
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