16 Maio 2020      16:23

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O homem do metro

Afinal, o que é e quem é o homem do metro? O homem é um substantivo masculino, alguém do sexo masculino, que é qualificado como alguém que anda e que é associado ao metro. O homem do metro não era ninguém relevante. Nunca o foi na sua vida para qualquer história. Tornar-se-ia na nossa história e por isso... conhecido de vós num pequeno pormenor na crónica de janeiro, o homem do metro cruza-se com uma mulher... e cruzam-se muito mais do que socialmente.

A mulher, não sabíamos ainda quem era. Só a conheceríamos no mês seguinte.

O homem do metro apenas o conhecemos hoje. Mas, perguntais, qual a sua relevância para esta novela que parece nunca mais terminar. Enquanto narrador, deixei para hoje este desfecho. Não que eu queira tornar a nossa personagem principal como uma pária perante os vossos olhos de leitores. Acreditai que Eloísa tomou todas as suas decisões e realizou todas as suas ações de acordo com uma moralidade que era a sua própria. Podemos muitas vezes questionar se eticamente foram corretas ou erradas. Não me cabe a mim, enquanto narrador, julgar nenhuma delas. Não o farei. A vida e os acontecimentos mudaram, durante 12 meses o rumo desta mulher.

A leitora e o leitor conheceram-na, sem saberem ainda quem era, como um frangalho de mulher, a esvair-se em sangue, perdendo primeiro a vida do seu filho e, adianto-vos agora, perdendo a sua própria vida poucas horas depois. Eloísa, a mulher que conheceram num motel, numa passagem de ano, que não conheciam ainda e que, pela qual, nos meses seguintes passaram a sentir simpatia, sem se aperceber que era a mesma, mudou. Todos nós mudamos, moldados pelos acontecimentos da nossa vida. Muitas vezes, não acreditamos que aquilo que nos chega seja verdadeiro e pomos em causa esses momentos.

Eloísa, que conhecestes como a doce e inocente e casta mulher tornou-se na rija, fria e insensível mulher que atraiçoou o seu amado. Nunca, desde o início, eu, o narrador, pensei que este Pablo fosse verdadeiro. No fim, enganei-me. Ele foi a pessoa que mais sofreu... e que mais foi enganado e roubado,

Eloísa, que ao início me parecia ser a mais fraca, passa de vítima e inocente a uma mulher fria, que controla e acaba por roubar o seu amado.

Não imaginei que se transformasse desta forma e muito menos imaginei que pudesse, num espaço tão curto, destruir a maldade que tinha construído, através da sua própria destruição física e psicológica. Eu não conhecia Eloísa. Provavelmente nem ela se sabia capaz destas atitudes. Porém, foi! E por isso aqui estamos.

Talvez tenha sido, como Edgar Allan Poe escreveu e como ele todos os góticos, os pecados dos pais. Certo é que o final de Eloísa foi trágico. Seria o karma pela sua maldade e devassidão final? Não me cabe a mim discutir mas sim aos leitores avaliar.

No entanto, o texto que nos traz aqui hoje é o meu compromisso enquanto narrador de vos contar o ponto de viragem na vida da nossa personagem principal.

No primeiro episódio desta crónica falei-vos de um homem do metro que era o pai do filho daquela mulher. Já sabemos que aquela mulher era Eloísa e que o filho fora concebido numa noite sem sequência, num encontro de prazer meramente carnal, sem sentimento. Apenas se pautara por atração sexual pura.

Mas quando aconteceu se Eloísa estava tão apaixonada por Pablo? Não necessariamente, senhor leitor. Recordam-se do mês de julho? Pois, passaram-no em Beja ambos. Tudo parecia um sonho. Não o era. Talvez fosse mais um pesadelo a partir daquela quarta-feira e quinta e sexta que Eloísa foi a Lisboa para reuniões de trabalho. Não vos tinha contado. Não vos podia contar tudo. Não sendo assim como podia ocupar a vossa curiosidade mais uma semana? Não podia!

Exatamente por isso, hoje vos contarei quem era o homem do metro e o que aconteceu nesses três dias em Lisboa.

Pablo decidiu ficar em Beja quando Eloísa lhe disse que teria de ir aos Registos Centrais e aos Serviços do Ministério da Justiça em Lisboa para uma formação. Não porque Pablo dispensasse conhecer melhor a capital, mas porque tinha naqueles três dias a oportunidade de finalizar os negócios sujos de tráfico de estupefacientes sem que a amada Eloísa se apercebesse disso. Ah pois, pensavam que era somente bonzinho? Ninguém é. Seja a este nível exagerado ou a outro, todos temos um lado lunar, um lado escuro. Pablo tinha enriquecido não só como modelo e como homem de negócios mas como senhor de alguns negócios que não eram propriamente legais.

Eloísa sabia? No início não, mas a meio, talvez em julho, sendo uma mulher inteligente, percebeu o enredo ao redor de si e decidiu aproveitar esse jogo e acompanhar as peças do xadrez em que se tornaram estas crónicas.

Voltemos ao homem do metro. Chamava-se Leandro e era um fanático do culturismo. Tipo simples que passava 6 das suas horas diárias a tomar esteroides e a passar tempo no ginásio. Durante o dia era segurança particular e à noite era porteiro numa conhecida discoteca de Lisboa. Toda a gente o conhecia, não só pelos seus dotes de sedutor mas também por ser um verdadeiro habitual dos bares de Lisboa durante a semana. Trabalhava apenas aos fins de semana numa discoteca de Lisboa. Nos outros dias, vagueava pelo Bairro Alto, onde era além de presença habitual, figura que deixava as mulheres assaz interessadas em si.

Ora, estando Eloísa sozinha em Lisboa e tendo já percebido que aquele homem que ficara em Beja não era quem pensara durante alguns meses, precisava de uma bebida.

Jantou num restaurante perto do seu hotel. Nessa noite, comeu frango grelhado numa churrasqueira. Além de um frango que tinha comido em Aljustrel, uma vez que por lá passara, no Fogareiro, este seria quase tão bom, mas nunca igual. Apesar disso, Eloísa saboreou a refeição. Após o jantar decidiu ir ao Bairro Alto. No dia seguinte não teria formação até às 14h. Parou num dos seus bares favoritos na travessa da Barroca. Já os conhecia das suas visitas a Lisboa. Bebeu vários Gins procurando colmatar a sua dor de ter descoberto uma fraude que dormia consigo. Talvez fosse só pelo prazer de beber gin e sentir-se embriagada.

Perto das 11:30 era hora de voltar ao seu hotel. Para isso tinha de apanhar o metro,. Coincidentemente, ao mesmo tempo, noutra rua, abandonava também o bairro, Leandro.

Chegariam à estação do metro os dois ao mesmo tempo e nela ficariam à espera do metro. Um em cada ponta da plataforma começaram a trocar olhares. Ébria, angustiada e com uma tensão sexual que não conseguia reprimir, Eloísa sentia-se atraída por aquele homem. Sabia que era errado, que tinha o seu apaixonado em casa. Era adultério. Era traição. Seria tudo isso. Eloísa sabia e sabia que a história não teria um final feliz se continuasse esse caminho.

Entraram os dois no metro e Leandro fez questão de ficar na mesma carruagem de Eloísa. Olhando-a de frente com todos os olhares, movimentos e sinais sensuais possíveis do livro, conseguiu a sua atenção.

Ambos os corpos ferviam. Ambos se desejavam. Saíram os dois na mesma estação. Não era para ser assim, mas um deles fez com que assim fosse. Eloísa caminhava como se não percebesse que Leandro a seguia, sabendo isso melhor que ninguém. Na saída, sem conseguir aguentar mais a sua pulsão, encostou-se numa das saídas e escadas de emergência, onde Leandro rapidamente se juntou e aí, da forma mais crua possível, se beijaram e mesclaram os seus corpos, crus, lânguidos, misturando saliva e suor de forma anónima e animalesca. Ambos saciaram os seus desejos. Aí, o filho de Eloísa foi concebido. Nessa noite que não se repetiria de um desconhecido, muito embora ambos ainda tenham terminado o encontro no hotel de Eloisa. Nem ela saberia o nome dele, nem ele o nome dela. Nunca mais se cruzariam. Não interessava.

O próprio Pablo nunca saberia deste episódio,nem desconfiava que o filho não era seu. Esse filho que não chegaria a nascer. Eloísa tinha dentro de si toda a raiva por Pablo. Misturada no gin, essa raiva levou-a ao limite, deitou-a com o homem do metro, que só nós sabemos chamar-se Leandro. Eloísa nunca soube o seu nome. Tudo foi simplesmente carnal. A criança foi gerada nesse momento anónimo e, quem sabe por isso, nunca chegaria a ter um nome, uma identidade.

Nessa mesma noite, foi a própria Eloísa que perdeu a sua identidade e se transformou. Não mais seria a mesma. Embora nem Paco, nem o senhor leitor o soubessem até ao momento em que ela se revelou, eu sabia e por isso me confesso culpado. A minha consciência de narrador obriga-me a que lhe conte estes pormenores que o senhor leitor provavelmente não queria saber. Porém, assim, saberá tanto quanto eu e certamente passou a ver a nossa personagem de uma perspectiva diferente. Assim aconteceu. E, assim são as histórias e tantas vezes assim é a realidade que conhecemos.

Esta história acaba aqui, imagine o senhor leitor a partir daqui os finais possíveis que queira e use o que de melhor temos, a nossa imaginação!

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