21 Dezembro 2019      10:11

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Mais do que a letra M

Muito mais do que a letra M, esta semana, o texto que aqui se escreve representa um elogio rasgado às pessoas cujo nome começa com a letra M, às terras que se iniciam por esta mesma letra e especialmente aos alimentos e aos produtos que também começam pelo mesmo carácter. Digamos… Medronho. Há quem não conheça e há que o conheça muito bem, seja pelo trabalho e pela sua produção ou, por outro lado, pela degustação do produto final.

Falemos em primeiro lugar de Miquelina. Conheci-a quando éramos ambos jovens. Convivemos até aos 16 anos e corríamos os campos da Manchúria como ninguém. Lá tínhamos nascido no mesmo dia à mesma hora. Era meio dia na Manchúria no meio do deserto, já muito perto da Mongólia. Miquelina nasceu com quatro quilos e eu sempre fui lingrinhas. Crescemos juntos desde pequeninos. Partilhámos brinquedos, roubámos comida um ao outro e até andámos à estalada, sem violência, mas sempre fomos muito próximos. Aos 16 anos, chegou o mês de maio e era altura do matrimónio para ambos. O problema é que o matrimónio não era entre os dois e eu tinha-me apaixonado por Miquelina aos 14 anos quando as coisas começaram a mudar.

Ela continuava a rejeitar-me em palavras e a ser bruta nos gestos. Eu continuava a adorar as pancadas e a admirar a sua rudeza. Miquelina casaria com um rapaz que vivia numa aldeia mais distante, também na Manchúria mas longe da Mongólia. Aquilo não tinha jeito nenhum, mas era a decisão das famílias. Miquelina, no final do mês de maio casaria com um rapaz da sua idade, que nunca tinha visto, chamado Manel, simplesmente Manel. E eu, Nostromo, estava uma letra à frente e nunca seria a escolha das famílias. Restava-me esperar pelos 17 anos, aguardar que a minha família me dissesse, no mês de novembro, que casaria com uma qualquer Néscia, que me faria infeliz ou com quem me conseguiria acostumar a viver. O amor ficaria sempre na letra anterior e na imagem da Miquelina que me seduzia e que eu amava tanto, como já se ouvia numa canção de Lisboa – Mouraria.

O tempo passou, ambos casámos com pessoas de letras iguais e diferentes entre nós, mas nunca mais nos vimos. Sei que Miquelina se mudou e viveu na Mongólia e eu morei na Manchúria, numa casa de madeira. Morremos ambos no mesmo dia, tal como tínhamos nascido. Apesar da distância, a morte uniu-nos e esta poderia ter sido uma linda história de amor entre os dois, tivéssemos nós ficados juntos. Separados, tentámos construir iguais histórias de amor em lugares diferentes. Acho que até consegui. Sobre Miquelina não sei. Nunca mais a vi.

Entretanto, num monte, em Portugal, chamado Malhão, alguém tentava fazer uma mesa infrutiferamente. A madeira estava seca, como as terras do Alentejo. Eram os meses de verão e não chovia. Se fosse hoje, com a depressão Elsa, chuva não faltaria e as cheias já teriam levado a madeira com que o homem tentava construir a mesa. Ao lado, um monte de lenha que não serviria para construir o objeto que faltava para terminar a casa. A mesa precisava ser terminada, mas nada garantia que as forças daquela pessoa fossem suficientes para terminar a demanda. O homem não sabia quem era Miquelina e Nostromo. Não imagina onde se situava a Manchúria e muito menos a Mongólia. Para construir a mesa isso não era importante também. Essencial era ter um machado e pregos, além da arte que, sejamos justos com a verdade, lhe faltava.

Meses passados, desistiu. Há que saber quando parar e ir à loja e comprar uma mesa já feita. Assim foi, um dia deslocou-se a Messines e comprou uma mesa nova. Considerando que aquilo já era perto do final do ano, decidiu ir mesmo apanhar medronhos nos campos e dedicar-se à produção da famosa aguardente com o mesmo nome. Dizem alguns que tem propriedades alucinogénicas. Dizem muitos, os restantes, que é muito bom e afasta as doenças e aproxima os amores.

Quem sabe se Miquelina e Nostromo o tivessem provado, ganhassem coragem e fugissem antes da primeira completar os 16 anos e casar com o Manel. Talvez um copinho ou dois os tivesse feito saltar a muralha da China. Talvez, mas não podiam porque o álcool está vedado ao consumo a menores de idade. E assim, mais do que a letra M, o que conta é saber que em cada momento e em cada metáfora, as palavras do escritor apenas abrem as portas da mente do leitor que constrói novos mundos.

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