2 Novembro 2019      11:46

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Lux Noctem

Deixei-me adormecer debaixo da mais sumptuosa e simultaneamente simples azinheira que se desenhava no recorte do Alentejo. Alumiada pela luz da noite, a azinheira centenária acolhia a luz da noite e eu dormia nos seus braços como uma criança feliz e segura.

A luz da noite, lux noctem, sussurrava-me aos ouvidos as belezas do universo, das coisas que se moviam nos ares escuros e que traziam consigo os sonhos que as crianças têm enquanto dormem.

Debaixo daquela azinheira, também eu dormia um sono profundo e sonhava as coisas da vida que me tinham sido cortadas durante os dias que passava acordado. Os nossos sonhos em criança transformam-se ao passar de cada um dos anos e quando somos adultos e nos lembramos daquilo que sonhámos ser, daquilo que sonhamos atingir, construir... tudo parece uma casa muito diferente da que arquitectámos nos sonhos, há muitos anos.

Hoje, com quase quarenta, sem perder a estrutura da casa que projectei, sem deixar que os sonhos da criança fugissem para longe de mim, abriguei-me de novo nos braços silenciosos de uma azinheira que conhecera há muitos anos atrás e deixei, no imenso sono que tantas vezes ousa fugir de mim, ser tocado na face pela luz da noite e aquecido pelo calor das estrelas, as mesmas que contava anos sem fim.

As mesmas estrelas que nunca consegui terminar de contar, caminhando na via láctea, eram a segurança dos meus sonhos, a certeza de que a luz da noite entraria pelas janelas e iluminaria todas as divisões de uma obra de arquitectura há muito pensada.

À luz da noite, momentaneamente livre de lamentos, pausava. À imagem cândida de uma árvore intemporal, os meus sonhos animados.

Longe, muito longe do meu corpo, vagueava à velocidade da luz através das luas e das luzes infinitas, tentando encontrar os pilares da casa. Nunca uma casa se construiu pelo tecto, como tantos tentaram e tentam. Nem que o cimento que nos une aos tijolos e aos alicerces seja o mais forte do mundo, de todos em que navegamos, poderá haver a certeza de que possam surgir brechas e destruir toda a construção.

Mais do que a luz do dia, na qual o corpo se alimenta da sua força para mover-se e criar, é na luz da noite que as forças perdidas são repostas. Tão suave ao olhar, sublime ao acentuar o contraste, a luz da noite reflete a luz do dia e adormece como eu, nos braços de séculos que não se mexem.

Singela e imensa sem se apregoar, com a sua ajuda, nos braços da madeira que serão as traves, termino os meus planos arquitectónicos de vida, mesmo com os olhos fechados. A luz da noite em nada precisa deles abertos para se refletir e me indicar o caminho.

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