11 Novembro 2017      11:14

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LEILÃO

"PARALELO 39N"

A sala estava cheia de gente e de coisas. Tanta gente e tanta coisa que as luzes faziam parecer ainda mais coisas e mais gente no mesmo sítio. Era noite de leilão. Nessa noite, as coisas eram muito diferentes do habitual. Quando, naquele salão grande, onde a única presença habitual eram os enormes candeeiros pendurados do tecto e as mesas vazias. Os candeeiros nos dias em que não era dia de leilão, estavam habitualmente apagados, escondendo a sua grandiosidade.

Era noite de leilão e, portanto, a história que se vai contar será maioritariamente escrita em torno de um leilão, das coisas que se leiloam, da emoção da pessoa que grita e vende e regateia as coisas e a triste história de Analídio. Era um homem baixinho, figura atarracada, mas que tinha uns braços tão compridos, mas tão longos que tornavam a personagem meio disforme. Não se pense que não gosto do homem. Tinha muito apreço por ele. Era uma pessoa generosa e curiosa que estava sempre disposto a ajudar os outros.

Era casado com uma senhora alta, esbelta, que na importância da sua alta idade, conseguia suster o ânimo de Analídio. Chamava-se, a bela senhora, Ana Lídia. Um tudo junto e o outro, em separado. A vida dos dois era assim. Das muitas virtudes do marido, não contaremos, mas que as havia, havia. Falemos dos defeitos que é muito mais interessante e toda a gente gosta. Bem, não era necessariamente um defeito. Era um vício, um impulso que não conseguia controlar. A mulher bem se arreliava e consumia naquela angústia. E para aquilo não tinha sido ainda encontrado tratamento. Analídio sofria mas não podia fazer nada. Quem era, afinal, Analídio? Era construtor, empresário riquíssimo. Não tinham tido filhos. Queriam ter tido filhos.

Ana Lídia e Analídio prepararam-se em trajes formais e forma, nesse fim de tarde para aquela sala que estava vazia e agora já se começava a compor. Estariam lá, porventura, duas centenas de pessoas. Uns mais altos, outros mais baixos. De todos, Analídio era o mais baixinho. Sentaram-se numa das mesas e, por volta das 8 da noite, iniciou-se o ritual do leilão. Leiloavam-se, nesses dias, leitões que, por coincidência, era o sobrenome da nossa personagem. Não era das comidas preferidas mas, de vez em quando, não recusava tal petisco. Lá do alto do pódio, o leiloeiro começou a acelerar no discurso e, entre hesitações e paragens, lá andava a anunciar os leitões. Ora quem dá mais? Ora vai uma, duas, duas e meia e três, vendido.

Analídio começou a ter suores frios mal o leiloeiro começou a falar. Dilataram-se-lhe as pupilas e o sangue passou todo para as bochechas. Ana Lídia ficou nervosa porque já sabia. Começou, no ora vai uma, um miudinho a crescer no braço comprido do homem e, sem explicação, começou o braço a erguer-se e a baixar-se, completamente fora de controlo. Toda a sala olhava estupefacta e incrédula para Analídio. Parecia uma aula de zumba, completamente incorporada por aqueles braços que andavam a fazer a coreografia. E lá vai mais um leitão comprado. E depois um cesto de compras e uma jarra sem utilidade e as lágrimas nos olhos de Ana Lídia Leitão a escorrer. O dinheiro a ser prometido a sair da carteira e as pessoas que continuavam a olhar. Era a aula de zumba, mas ele era o único que dançava. Era uma reação completamente incontrolável. Analídio chorava junto com a Ana Lídia. E na mesa mais um leitão e o livro de cheques a esvaziar. Parecia uma cena de um filme mas não era. Era impulso e ninguém lhe oferecia flores. Todos desejavam que acabasse.

E, para contento do senhor leitor, estava quase a acabar. Quase, quase, mas ainda faltava o último item. Guardado num envelope, um prémio! A expetativa. É claro que Analídio levantou o braço mais que toda a gente e, obviamente, arrecadou o prémio segredo. Sai o cheque, entra o envelope nas mãos de Ana Lídia. A mulher, a medo, mãos trémulas, abre e os seus olhos esbugalharam-se! Acabara de comprar um colete-de-forças, anti leilão para o senhor Leitão. Era pôr aquilo no marido e a engenhoca permitia apenas uma compra em cada sessão. Analídio viveria mais contente e a carteira agradecia. A partir desse momento, podiam já ir a mais do que um por mês. Vendo bem, pensava Ana Lídia, não ficara caro. Tinha custado só 5000 euros mas era uma garantia de poupança. Analídio também não percebia mas gostava do que a mulher lhe dizia e de lhe ver um sorriso no rosto.

 

Imagem de comregras.com

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