22 Fevereiro 2020      11:45

Está aqui

Janeiro

O ano começara no dia um, precisamente às zero horas. A festa tinha sido de arromba para todos, exceto para aquela mulher que se esvaía em sangue no quarto de um hotel a muitos quilómetros de casa. Podia ainda ouvir lá fora o fogo de artifício e as festividades, enquanto as lágrimas lhe corriam pela cara abaixo e no rosto traços de sangue marcavam a sua pele como se fossem rasgos e marcas de guerra, tribais.

Eloísa nunca se tinha sentido tão frágil nem nunca tinha estado em semelhante situação. O seu poder de controlo tinha sempre sido superior a tudo e naquele dia, àquela hora, ao perder aquele bebé, naquele quarto, quase como se fosse uma criminosa, tornava as coisas tão mais complexas numa vida que quisera simples. Ao longe, o fogo de artifício. E mais longe ainda estaria o pai daquela criança, a qual nunca conheceria. Eloísa sentia o peso da vida e da morte, nas entranhas de sangue que saiam dela como aquele feto, aquela vida que nunca chegaria a ser.

Passava pouco da meia-noite e Eloísa continuava a contorcer-se em dores e sofrimento. Flashbacks passavam por ela, velozes como uma espada que lhe atravessava o ventre e tinha já levado a vida que se formava dentro dela. Nada havia naquela passagem de ano que pudesse alterar o rumo das coisas que iam acontecendo. O fogo de artifício continuava do lado de lá da janela. Do lado de dentro, o reflexo das luzes e o barulho que acentuava o dramatismo da situação.

Estava sozinha. Aliás, tinha sempre estado sozinha. Nem no momento em que concebia aquele que não chegaria a ser, se sentira acompanhada. Teria sido uma situação passageira, um ato de prazer conduzido por uma pulsão sexual como há muito não sentira. O homem, tinha conhecido no metro. Os olhares cruzaram-se. Ambos sorriram e ele seguiu-a.

O fogo parou e Eloísa adormeceu, absolutamente devastada. Acordaria horas depois, no novo ano que nada lhe reservava. Abriu os olhos e viu o vazio. Nada!

E ali ficou, prostrada, aguardando que alguma coisa acontecesse. E nada. Nada aconteceu.

O importante é o que aconteceu nos meses antes.

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