16 Novembro 2018      19:27

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Intelectual de Biblioteca

Era irrelevante discutir com aquela pessoa. Não valia a pena estar a sustentar argumentos com ela pois a validação dos mesmos era interrompida, no seguimento de uma desconstrução dialética e empírica dos silogismos. Era uma realidade epistemológica de um discurso hermético raramente visto no seio dos intelectuais que naquela avenida habitavam.

Cada casa tinha um ou dois. Juntavam-se, às vezes, no café ou no restaurante no início e do fim da rua. Sabiam todos os nomes de todos e andavam todos com um livrinho de notas debaixo do braço. Raro era aquele que não tinha também uma outra grande obra da literatura ou da filosofia universal.

Porém, dada a morosidade e complexidade do assunto sobre o qual nos debruçaremos, torna-se imperativo que a linguagem e a narrativa incidam sobre factos e fatores cruciais à compreensão global e detalhado do sucedido. Entende-se, à priori, que aconteceu alguma coisa. E não diverge o estimado/a leitor/a daquilo que sucedeu. Neste universo de intelectuais da Avenida das Alcagoitas, assim era o seu nome, dois irmãos havia que residiam num pequeno apartamento, de aspeto singelo mas acolhedor. Eram, pasme-se, gémeos siameses. Recordar-se-á o senhor leitor de gémeos siameses famosos. Por exemplo, recordemos os gémeos tailandeses de seu nome Chang e Eng Bunker, Ronnie e Donnie do Ohio e os irmãos na obra Nenhum Olhar do escritor José Luís Peixoto.

Ora bem, estes dois irmãos, naturais das Alcaçarias, residentes, após a idade adulta, na Avenida das Alcagoitas, habituaram-se cedo à vida na cidade. Não passavam despercebidos naquela Avenida pois, apesar de todos os intelectuais que não reparavam em aspetos mundanos e banais, naqueles irmãos todos reparavam e todos olhavam, com um olhar filosófico e com o único e só intuito de intelectualizar.

Os manos eram ligados pela perna e pelo braço, esquerdos de um e direitos do outro, e assim andavam e passavam os seus dias. O seu ritual era habitualmente o mesmo. Levantar às seis da manhã da cama de corpo e meio que partilhavam, tomar o pequeno-almoço e beber a bica no café do início da Avenida (o café após o jantar era tomado no restaurante do final da Avenida).

Seguidamente, e seguindo o protocolo estabelecido nos livros de apoio a gémeos siameses que tinham adquirido num alfarrabista que se situava sensivelmente a meio da Avenida e quatro portas abaixo da sua, caminhavam para a Biblioteca, onde os intelectuais se reuniam e cogitavam acerca dos mais diversos aspetos da contemporaneidade e alguns até de tempos remotos. Em futurologia, poucos eram especialistas.

Na Avenida, preponderavam dois tipos de intelectuais, os intelectuais universais e os intelectuais específicos que se tinham especializado em campos do conhecimento e do saber tão diversificados como matemática, astrofísica, ciência política, economia e estudos literários e linguísticos. Os gémeos, de seu nome, Ronaldo e Rolando, pertenciam ao grupo global de intelectuais. Porém, algo havia que complicava a sua atração pela intelectualidade e que verdadeiramente se imiscuía no seu quotidiano. Ronaldo era um intelectual universal e Rolando um intelectual especializado em estudos culinários e de índole gourmet. O problema que surgia e fazia com que a fêmea do suíno torcesse o apêndice caudal era que, nessa Biblioteca, pese embora o facto de nela se reunir toda a intelectualidade da avenida, os intelectuais universais se reuniam na sala Churchill (piso 1) e os intelectuais específicos na sala Confúcio (piso 2). Fica tudo confuso, especialmente os siameses pois não podiam estar nos dois pisos ao mesmo tempo. Era de uma complexidade atroz.

Assim, após longas conversações, e conselho dos avisados intelectuais de Biblioteca, assim andaram durante algum tempo, dia sim, dia não a comparecer em reuniões alternadas até que ficaram incomensuravelmente desgastados com a situação.

Até hoje não sei o que fizeram a seguir e também não lhe fui capaz de perguntar, pois não os conheço pessoalmente.  

 

 

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