30 Maio 2020      12:52

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I. A toupeira

Começa, com este texto, mais um ciclo nesta minha coluna semanal. Desta vez, tornei-me mais arrojado. Não que, de forma alguma, queira ou me possa comparar a Ésopo ou La Fontaine, mas tentarei criar alguns textos e alguns mundos em que as personagens e, principalmente, os protagonistas são animais. Nas próximas semanas, dificilmente, o caro leitor e a cara leitora se cruzarão com seres humanos e, se isso porventura acontecer, terá sido pura coincidência.

As fábulas, como certamente já terá ouvido, “(em latim: fabula, "história", "jogo ou narrativa") são composições literárias curtas, escritas em prosa ou versos em que as personagens são animais que apresentam características humanas (como falar), muito presente na literatura infantil. As fábulas possuem caráter educativo e fazem uma analogia entre o cotidiano humano com as histórias vivenciadas pelas personagens, essa analogia é chamada de moral e geralmente é apresentada no fim da narrativa. - Wikipédia.

Nestes próximos textos falarei apenas dos animais. O que têm estes animais de especial? Bem, além de terem personalidades bastante vincadas, vivem num mundo em que não há humanos e onde andam em duas patas. Bem sei que se parece muito com o cinema, mas se assim não fosse seria muito difícil que andassem como os humanos e fizessem coisas como eles.

As nossas personagens vivem nos mesmos sítios em que as senhoras e os senhores também vivem, têm os vossos hábitos, as nossas qualidades e os nossos defeitos. Assim é. Assim será sempre.

Esta primeira narrativa passa-se em Nova Iorque, nos anos 90 do século XIX e a nossa personagem chama-se Toupeira. Toupeira nasceu na Pensilvânia no início dos anos 70. Desde pequeno que evidenciou problemas de visão, profundos. Ele, desde os primeiros anos, teve uma visão tão reduzida que foi absolutamente necessário que sua mãe lhe comprasse óculos de graduação quase máxima. Teve de aumentar essa graduação anualmente. Nem uma cirurgia conseguiu que o processo fosse revertido. Infelizmente, era problema de família. A sua mãe, o seu pai e os seus dez irmãos eram todos assim. Era preciso aceitar. Quase todos aceitaram.

Essa condição, porém, não impediu Toupeira de alterar o seu caminho e perseguir os seus objetivos. Era ambicioso. Muito ambicioso. Apesar de ter vista curta, em sentido restrito, tinha visão larga, em sentido abrangente.

Aos 22 anos mudou-se para a cidade de Nova Iorque, tendo arranjado trabalho numa multinacional financeira. Tinha-se licenciado como economista, mas não foi exatamente nessas funções que começou. Fazia, por outro lado, análises de risco ao seu chefe. Prévia risco de chuva, risco de inundações, risco de neve e risco de mau tempo no geral. Basicamente não fazia nada. Mas, e aí é que reside o grande trunfo de Toupeira, estava bastante próximo do chefe, que não era só seu chefe mas sim de todos. Era o dono da empresa. Riquíssimo. Era um boi.

Toupeira era ambicioso. Muito ambicioso. Farto de andar a fazer estas análises de risco, decidiu tomar alguns riscos. Às escondidas, passou a frequentar um speak-easy (bares do tempo da lei-seca ilegais). Sabia que aí também frequentava o chefe de uma empresa concorrente. Só era preciso encetar conversa com esse chefe e oferecer-lhe os seus préstimos de Toupeira, em troca de benefícios.

Dias a fio, frequentou esse lugar e embriagou-se com sumo fermentado de couve e de cenoura. Muito tempo depois, uma noite, apareceu Pitão. No entanto, como chegar à conversa com a cobra sem ficar com o pescoço apertado? Não era fácil. Para Toupeira seria e tinha um plano. Assim procedeu. Fingiu que deixou cair os óculos no chão e rastejou até que Pitão decidiu ajudar o pobre Toupeira. Já de óculos postos, o espanto de Toupeira até pareceu real. O senhor é o chefe da companhia Y? Não é? Sim, respondeu Pitão, com algum desdém. Que coincidência, retorquiu Toupeira. Sabe, posso ajudá-lo a tornar-se maior do que a companhia X. É claro que isto não lhe sairá muito caro. Apenas lhe peço um cargo de direção quando a Y for maior do que a X.

Após alguma hesitação, Pitão concordou. Tinha encontrado a sua Toupeira na empresa X, e isso faria de si o Pitão maior de Nova Iorque.

Durante vários anos, Toupeira passou informação a Pitão que foi enriquecendo e ganhando avanço a X. Toupeira, ainda assim, continuava a fazer análise de risco. Não calculou bem o seu risco, no entanto. Um dia X foi à falência e Toupeira, contentíssimo, foi a correr pedir a sua avença em troca dos serviços prestados.

À porta da empresa, esperavam-no dois gorilas que lhe pediram que se identificasse. Sou a Toupeira da empresa X. Ainda não tinha acabado a frase e já os gorilas o estavam a socar e a partir os óculos. Atiraram-no para o meio da rua. Não via nada. Pouco mais viu durante muito tempo.

No fim, restou-lhe apenas regressar à Pensilvânia, auxiliado por algumas aves caridosas. Nunca mais saiu da toca, a partir desse dia, nunca mais.

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