20 Março 2020      16:23

Está aqui

A história que persiste em não acabar

Dizem-me que aqui se esfumaram os novos liberais, ficámos reduzidos a democratas-cristãos, sociais democratas, socialistas e, como não podia deixar de ser, nacionalistas. As definições nestes momentos pouco nos servem e interessam, o importante mesmo é a convicção que cada um tem na forma como vamos ultrapassar este momento – que é um problema de todos.

As janelas das nossas casas são a liberdade que podemos ver. No entanto, os livros e o sonho, esses sim, são os verdadeiros atos de libertação. Enquanto os nossos equipamentos eletrónicos nos colocam em contacto, e em contacto com a gravidade do momento que atravessamos, muitos pensam já no dia seguinte. É aqui, na reflexão crítica sobre o futuro que começam as dicotomias.

Isto ainda está longe de passar, e neste combate temos de estar todos mobilizados, mas todo o tempo será bem empregue (àqueles que têm a felicidade de o ter) em pensar como vamos sair disto, em que modelo e com que ferramentas. Com uma premissa: vamos passar a ver muitas coisas de forma diferente.

Tal como o tempo venceu Fukuyama e o seu “fim da história”, o momento que vivemos é a prova de que as divisões ideológicas e os modelos de sociedade estão longe de ser consensuais. Se no nosso país e no espaço europeu (já lá vamos à Hungria) estamos maioritariamente convictos de que é a resposta pesada e musculada do Estado que nos vai salvar, com o reforço da capacidade dos serviços públicos de saúde e o estímulo público à economia, noutras latitudes a coisa é bem diferente.

Nos Estados Unidos da América os democratas derrotaram o candidato que defendia um serviço público universal de saúde e o Brasil de Bolsonaro a alinhar com Trump na vendilhagem do conceito xenófobo do “vírus chinês”, propagandeando o protecionismo e a exacerbação do novo nacionalismo. Neste alinhamento e aqui mais próximo temos Orban, na Hungria, a afirmar que o vírus foi colocado por estrangeiros, lançando uma nova campanha de desinformação nacional.

Saramago disse que “De Marvão vê-se a terra toda”. É verdade.  Mas neste momento daqui apenas podemos ver fragmentos do futuro, sem poder prever de forma exata o dia de amanhã. Onde vai ficar a solidariedade entre os povos? Quem vai continuar a defender a desregulação da economia? Qual a importância dos serviços públicos universais?

E, por fim, eu, defensor da intervenção do Estado me confesso com três notas finais: i) total reconhecimento e solidariedade com quem cuida de nós neste momento tão difícil; ii) esperança que todos encontrem de volta os empregos no final da crise; iii) necessidade de criarmos rapidamente uma estrutura de missão à escala regional de apoio concertado e de proximidade aos setores de atividade que forem mais afetados neste período

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