7 Dezembro 2020      11:04

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Florbela Espanca - 90 anos da sua morte

Assinalavam-se, entre hoje e amanhã, os 126 anos sobre a data de nascimento e os 90 anos da morte da grande poetisa alentejana, Florbela Espanca.

O seu desaparecimento continua envolto em mistério. Terá ocorrido na noite de dia 7 de Dezembro, às 22 horas, conforme a versão oficial? Terá falecido na madrugada de dia 8? Suicídio ou morte natural? 

O dia 8 está para sempre associado à sua própria existência. Foi nesta data que nasceu, foi num dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Vila Viçosa, que casou pela primeira vez e terá sido num dia 8 que partiu...

As dúvidas permanecem, embora as causas sejam irrelevantes. Imortal é a sua obra, reveladora de uma genialidade incomum, escrita por uma mulher insatisfeita e inquieta, irreverente e ousada, que jamais se conformou com os cânones instituídos. Nunca quis ser convencional, esposa obediente ou doméstica serviçal.

Nascida no seio de uma família de artistas, esse facto marcou de forma indelével a sua própria inspiração. Nunca, até então, uma mulher tinha ousado, através da escrita, questionar as normas vigentes de uma sociedade conservadora, que castrava qualquer tentativa de afirmação feminina e restringia o papel da própria mulher a insignificantes destinos.

Quis o próprio destino que Florbela marcasse a diferença, com um elevado preço a pagar. As suas escolhas, quase sempre motivadas pelo sentimento, muitas vezes em detrimento da razão, conduziram a um sofrimento profundo e à incompreensão generalizada, até por parte dos que lhe eram mais próximos..

Terá sido esse atroz sofrimento que, em última instância, motivou a sua obra poética e a levou a refletir sobre a efemeridade da vida e a tragicidade da morte? Talvez nunca seja possível saber... 

A tendência para a escrita esteve sempre presente, desde tenra idade. Mas as circunstâncias da vida moldam o caráter de cada um de nós. A sua obra é o resultado de um tempo que não a compreendeu...

De forma irónica, o real reconhecimento e valorização do seu legado só ocorreram depois da sua morte e talvez como infeliz consequência desse facto.

Como olhamos hoje a sua herança literária? Como valoriza o mundo lusófono a sua obra? Quão actual é a sua mensagem? De que forma contribuiu para a emancipação do papel da mulher na sociedade?

Talvez muitas das conquistas femininas que foram obtidas, nomeadamente no nosso país, tenham tido o seu embrião nas causas que Florbela assumiu e defendeu. 

Temas como a denúncia de violência doméstica e a luta pelos direitos da mulheres estão presentes nos seus manuscritos e são reveladores das suas inquietações sobre o mundo imperfeito e preconceituoso que a rodeava e que teve a coragem de enfrentar.

As suas cartas e postais revelam uma mulher próxima da família, sempre preocupada com o pai João Maria e o irmão Apeles, com o seu Alentejo no coração, enriquecendo os seus testemunhos com reflexões sarcásticas sobre ordem social e política da primeira metade do século XX.

Infelizmente, e talvez para uma grande maioria, Florbela continua a ser vítima do preconceito, da discriminação, da desconfiança e da incompreensão. Apesar das tentativas de valorização do seu legado, promovidas sobretudo pela sociedade civil, importa criar uma forma que coloque a Poetisa no lugar que lhe pertence, por direito próprio.

Para além do esquecimento político e cultural, é urgente, na minha opinião, reunir, estudar, valorizar e disponibilizar à fruição pública o que permanece ainda vivo do seu legado cultural, na terra que a viu nascer.

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