27 Setembro 2020      11:15

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Fascismo, comunismo, fanatismo e outros ismos

Vivemos hoje num maniqueísmo permanente e em que as redes sociais são terreno de batalha fértil; nelas, qualquer um se julga no direito de ofender, trocam-se conceitos e confunde-se opinar com ofender, destratar com argumentar.

Enche-se a boca para com a facilidade de carregar nas teclas chamar “fascista” ou “comunista” a quem não pensa como um “eu” que muitas vezes nem lê tudo, que muitas vezes nem lê nada, que muitas vezes não passa de um perfil falso.

O facto é que Portugal nunca conhecer realmente o fascismo nem o comunismo que muitos falam. Portugal, felizmente, nunca sentiu o vigor do fascismo como Espanha, Itália e Alemanha, nem o do comunismo da ex-União Soviética ou dos países balcãs.

Os tempos do Estado Novo foram, sem dúvida uma ditadura de contornos fascista, mas não chegou a ser um regime fascista na pior aceção da palavra, já por si depreciativa.

Madeleine Albright, ex-secretária de Estado dos EUA na governação de Bill Clinton, em 2018, aquando da publicação do seu livro ”Fascismo - Um Alerta”, numa entrevista ao Diário de Notícias, disse que Salazar "não era fascista, via o nazismo como imoral e desconfiava da democracia".

Já o comunismo nunca foi poder, nem esteve nunca perto de ser algo que se assemelhasse sequer ao que foi nos países debaixo do jugo da ex-URSS.

Portugal tem vivido assim numa guerra fria interna que legitima a continuação dos termos direita e esquerda, como se a gestão política e dos seus princípios éticos dependessem somente desta conotação.

Sim, há regimes ditatoriais que se opõem às democracias; sim, há regimes ditatoriais que se mascaram de democracias e há regimes ditatoriais que se aproveitam das democracias para se instalarem com uma falsa capa de legitimidade. Sim, há regimes ditatoriais de esquerda e de direita se quiserem fazer distinção. Sim, o nazismo e o comunismo foram ambos ruins e não são desejáveis no futuro.

Neste sentido, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que coloca nazismo e comunismo em pé de igualdade; o regime nazi de Hitler foi culpado do genocídio de cerca de 6 milhões de pessoas, e o comunismo de Estaline pela morte de cem milhões de pessoas.

Um pouco por todo o mundo, mais uns milhões morreram e morrem às mãos de ditadores.

Regressando a Madeleine Albright, nessa mesma entrevista recorreu a uma frase de Primo Levi: "Todas as épocas têm o seu fascismo”, a nossa não é exceção e, os atuais, revestem-se de outras circunstâncias, de outro modo de estar. Uns já estão no poder, outros querem estar, mas os tiques ditatoriais estão lá, sendo mais óbvios em Maduro, Erdogan, Putin, Al-Assad, Lukashenko, Duterte, Kim Jong-un ou manos Orban, mas não deixando de existir em Trump e Bolsonaro, na supra maquilhada democracia chinesa ou em aspirantes ao poder como Le Pen, Ventura, Salvini ou Farage, por exemplo.

Quer uns, quer outros, são oposição à Liberdade, à Igualdade, à pluralidade. Muitas vezes, à própria Humanidade.

Há cerca de dez dias, o país andava tão absorto em falar de Covid e de Chega que uma notícia de grande relevo quase passava incólume. Uma notícia que mostra por A+B que fascismo e comunismo só diferem numa coisa: a quem dirigir o ódio, a escolha do inimigo. São ambos ditaduras, uma de cada extremo político.

Métodos, objetivos e modos de estar são iguais.

A ONU acusou o Governo de Maduro, presidente que herdou o poder de Chávez da Venezuela, de violações sistemáticas dos direitos humanos, num relatório com 443 páginas, em que se acusa o presidente Nicolás Maduro, o numero dois do ex-presidente Chávez e presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Diosdado Cabello, os ministros do Interior, Néstor Reverol, e da Defesa, Vladimir Padrino López; e os chefes dos serviços de inteligência, além de mais 45 funcionários do regime venezuelano são acusados de crimes contra a humanidade, sistemáticos, como assassinatos, uso sistemático de tortura e violações, agressões, prisões injustificadas, entre outros, e a investigação só foi até 2014.

Típico dos sistemas ditatoriais, o sistema veio logo negar e acusar quem fez o relatório. Aliás, este é o modus operandi que tem feito proliferar os maus sistemas pelas redes: as fake news, a contra informação infundada e da qual também a administração Trump tem feito um uso continuo, como se pode ver esta semana, em que já recusam uma derrota nas eleições dizendo que não a aceitam e que será fruto de corrupção levada a efeito pela oposição, feito inédito, pois estas manipulações são muitas feitas levadas a efeito pelo poder e nunca pela oposição.

Os posicionamentos da administração Trump têm sido uma antítese dos seus princípios fundacionais: democratas, de Liberdade, de Fraternidade e Igualdade. Tem sido posições maioritariamente belicistas, como se fosse um bully do mundo, uma criança mimada e birrenta cujo poder só existe se chamar nomes aos outros. Desde que Trump chegou ao poder, o mundo ficou perigoso e voltou a sentir-se bipolarismo da guerra fria que tem feito do Médio Oriente um campo de guerra e da Europa um peão quase sem poder na batalha económica.

A ameaça clara do embaixador dos EUA em Portugal, ontem, é inaceitável e inadmissível.  As palavras de George Glass – que faz lembrar com saudades o antecessor Robert Sherman – de que Portugal tem de escolher com quem quer negociar e ser amigo, EUA ou China, são uma ingerência clara na política interna e na soberania nacional. 

Entre os ismos, eu prefiro o europeísmo e o humanismo. Longe do fanatismo,do extremismo, sejam de que tipo for. As ameaças são muitas, mas os Homens capazes de segurar a Liberdade também, assim o queiram.

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