Noventa por cento dos portugueses consideram que não receberam uma boa educação financeira na escola, segundo dados do European Consumer Payment Report 2025 (ECPR 2025), divulgado pela Intrum. O estudo revela que apenas 10% dos consumidores em Portugal afirmam ter tido formação financeira adequada no ensino formal, um valor significativamente abaixo da média europeia, fixada nos 20%. A ausência de literacia financeira desde a infância é apontada como um dos fatores estruturais que contribuem para a fragilidade económica, o sobre-endividamento e a reduzida capacidade de poupança na idade adulta.
De acordo com o relatório, os comportamentos financeiros dos adultos estão fortemente ligados ao contexto familiar em que cresceram. Apenas 51% dos inquiridos em Portugal referem ter recebido dos pais noções básicas de gestão do dinheiro e só 29% afirmam que o tema era discutido com abertura em casa. Paralelamente, 25% recordam o dinheiro como uma fonte frequente de tensão familiar. Para o diretor-geral da Intrum, Luís Salvaterra, a educação financeira deve ser “universal, obrigatória e estruturada desde cedo”, sublinhando que a falta desta preparação compromete a igualdade de oportunidades e perpetua ciclos de vulnerabilidade económica.
A análise regional evidencia desigualdades significativas, com o Alentejo a surgir como a região mais afetada pela falta de literacia financeira. Apenas 26% dos inquiridos alentejanos dizem ter aprendido com os pais a gerir o dinheiro e mais de metade (51%) cresceu num ambiente de stress financeiro. Estes indicadores colocam o Alentejo acima da média nacional no que respeita à exposição a dificuldades financeiras durante a infância, refletindo fragilidades estruturais que se prolongam ao longo da vida adulta e condicionam a estabilidade económica das famílias da região.
O estudo classifica os consumidores em três perfis — “Frágeis”, “Adaptados” e “Resilientes” — mostrando que apenas 5% dos consumidores considerados financeiramente frágeis tiveram educação financeira na escola. Entre os resilientes, essa percentagem sobe para 19%, sendo também mais frequente a aprendizagem em contexto familiar. A Intrum conclui que a fragilidade financeira resulta sobretudo da falta de ferramentas para tomar decisões informadas, alertando para a necessidade de uma intervenção estruturada no sistema educativo, com particular relevância em regiões como o Alentejo, onde o impacto social e económico desta lacuna é mais profundo.