15 Junho 2019      10:43

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Os Falares do Alentejo – Um Património Cultural Imaterial a preservar

“O Alfabeto comum não chega para dizer o Alentejo. Por isso, os homens e as mulheres da terra plana inventaram palavras que explicassem melhor a alma” - Vítor Encarnação

 

Criada em 2003 pela UNESCO, a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, veio consciencializar a sociedade civil para a valorização e protecção da identidade cultural de determinado território, bem como os bens comuns da humanidade, incluindo a língua e expressões orais. Artes e espectáculo; práticas sociais; rituais; aptidões ligadas ao artesanato e conhecimentos; práticas relacionados com a Natureza e o Universo, são outros dos domínios sob o qual o património cultural e imaterial se manifesta. O Cante Alentejano, os chocalhos de Alcáçovas e as figuras de barro de Estremoz, são exemplo recente do reconhecimento pela UNESCO e que através da sua visão internacional, nos dão não só uma maior responsabilidade, como inspiração para o futuro.

Na imensidão do território alentejano, dos locais mais recônditos onde “não se vê viv´alma”, da raia ao mar, das aldeias aos maiores centros urbanos, encontramos um dos grandes pilares da identidade desta região – a sua linguagem, os seus falares, as expressões e alcunhas, onde o sotaque nos transmite toda a autenticidade da sua sonoridade. Com a globalização da informação e comunicação, a uniformização de costumes e o desapego pelas raízes territoriais, as gerações mais novas tendem a perder o interesse e percepção da essência carismática deste património linguístico, tal como refere Ricardo (2017). O aumento do envelhecimento, da escolarização e a falta de medidas de sensibilização junto da comunidade escolar, incentivando à interacção entre gerações, são também factores que contribuem para a perda deste bem, assim como no diz mais um ditarenho alentejano: “É tão certo como um galo cantar de bico aberto”. Há porém, nos confins da planície, as testemunhas vivas que no seu quotidiano ainda bem não (de vez em quando) andam à vara larga (sem limitação) e na taberna do Ti “Barriga de almece” se sentam, convivem e linguarejam como nos tempos idos. A modes que (de modo que), as gerações de hoje são bem falantes (educados) e cheios de nove horas (manias). Confesso que eu próprio aos escrever estas linhas até fico derramado (irritado), com tamanha distancia, desinteresse e por vezes vergonha dos seus falares…

Por sua vez, as alcunhas, bem típicas das aldeias e da ruralidade alentejana, onde por vezes a aceitação da comunidade e o próprio tempo as transformam em apelidos, desempenham um fenómeno socio-cultural que dificilmente encontraremos nos grandes centros urbanos. Onde as relações interpessoais, familiares e de vizinhança são significativamente inversas ao mundo rural. Esta outorga e uso da alcunha, apresenta em contexto sociocultural de comunidade, uma dimensão por vezes complexa, tendo em conta um conjunto de processos sociais, comportamentais e inclusive de parentesco. No fundo a verdadeira função da alcunha será de identificação, o que naturalmente a torna numa marca de “sociabilidade e comunicação no mundo rural” (RAMOS & SILVA, 2002).

Por tudo isto, torna-se premente a salvaguarda, o estudo e recolha de informação para que seja possível assegurar a continuidade deste património linguístico e que alicerça a identidade alentejana. Saibamos nós, alentejanos, ter a capacidade, vontade e iniciativa de preservar a nossa essência, tal como já o fizeram: Francisco Ramos e Carlos Silva, “Tratado das Alcunhas Alentejanas, 2002; Vítor Barros e Lourivaldo Guerreiro, “Dicionário dos Falares do Alentejo” 2001; Luís Ricardo, “Falares e Ditarenhos do Alentejo”, 2017.

 

Imagem de publicocdn.com
 

 

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