1 Dezembro 2019      12:30

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Ela, eu e como aprendemos a viver juntas

Olá, de novo.

Sinto que estou a falar para vocês, leitores meus amigos, há semanas e vocês apenas conhecem o meu nome, o meu curso e a cidade onde estudo.

Sou muito mais do que isso; tal como disse no texto anterior, consigo ajudar pessoas com recurso às minhas palavras. E vou começar por mim. Pelo meu lado mais preto e triste. Todos temos um lado assim, certo?

Vou começar por dizer que, tenho uma doença. O nome conhecido pelos médicos, é Esofagite.

Trocando por “miúdos”, consiste na inflamação do meu esófago, não me permitindo comer. É pior daquilo que vocês possam pensar. Mas estou a começar pelo fim. Vocês merecem a história desde o início. Foi dia vinte e cinco de janeiro de dois mil e dezoito que a minha vida decidiu tomar um rumo totalmente diferente. Mudou-me a mim, e todos aqueles que me rodeiam. Engasguei-me; com um comprimido. Estava sozinha em casa. Entrei em pânico. Cada vez que bebia água, ela saía disparada pelo nariz. As minhas mãos nunca tremeram tão depressa. O meu chão era só água que saía disparada da garrafa. Liguei à minha mãe. Ela deixou o telemóvel em casa. Comi, vomitava. Não conseguia falar. Gemia. Chorava. Mesmo muito. Liguei à minha avó. Ela atendeu. Percebeu o pânico e juntamente da minha mãe, vieram para casa. Olhei para a minha gata, e pensei “Vai ser esta a minha última imagem. Vou morrer agora. Chegou a minha hora. A minha gata, vai ser a única a ver-me com vida. A ajuda não vai chegar a tempo”. Vi a minha vida, pelas lágrimas que escorriam agressivamente, a passar-me toda pela frente; sim, não é um mito, acontece mesmo.

A partir desse dia, parei de viver. Só existia. Desenvolvi medo de comer, e de beber. Pensava que cada vez que ingerisse algo, me voltaria a engasgar e a passar por tudo de novo. Tomei então a decisão de parar de comer sólidos. Os meus novos melhores amigos tornaram-se o ceralac, sopa e imensa comida para bebé. Mesmo muita.

Desenvolvi ansiedade. Que se viria a transformar numa depressão meses mais grave. Todos os dias tinha pelo menos um ataque de pânico. Não conseguia estar sozinha em casa. Não conseguia tomar banho sozinha. Eu, a pessoa mais independente do mundo, estava agora dependente de toda a gente. A minha família, mudou o seu quotidiano para o meu bem. A escola? As minhas notas baixaram. Não conseguia estar nas aulas. Saía a meio. Se ficasse, começava a chorar. Isto é, quando não ia a correr para a casa de banho ter um ataque de pânico com a minha mãe ou com a minha avó do outro lado do telemóvel.

Ganhei uma inimiga: a morte. Tenho tanto medo de morrer. Estou sempre a pensar nela. Estou sempre a pensar que vou morrer no minuto a seguir. Não consigo ter paz. Não conseguia dormir, tinha medo de não acordar. Entrei numa psicóloga onde ando até hoje. Senti-me perdida. Ajudou, mas não o suficiente. Entrei numa psiquiatra, onde ando até hoje. Sim. Tomo medicação. Todos os dias. Sou dependente daquilo que quase me matou, irónico?

O problema não passava. Sentia o esófago cada vez mais apertado. Tentava comer comida de pessoa de dezassete/dezoito anos e era como um punho fechado e duro insistisse a morar na minha garganta. Fui fazer o exame do tubo. Os resultados vieram. O tubo não passou na minha garganta. Ela estava inflamada. Estava fechada. Uma esofagite. Sabem o que é que isso significa? Que adicionei mais dois medicamentos à meia dúzia que já tomava.

Continuo a ser uma dependente.

Hoje em dia, os meus ataques diminuíram. Com eles, aprendi a ajudar pessoas que sofrem do mesmo que eu sofri/sofro. E se isso significa ajudar o próximo, eu voltaria a passar por tudo de novo, apenas para saber lidar com pessoas com ansiedade e melhorar os seus dias, como já acontecera. Ainda não como tudo o que pretendia. Mas vou chegar lá um dia.

Não perco a esperança de voltar a ser normal. Fiz uma tatuagem. Um sol. Um sol significa vida, significa a chance que eu tive. A sorte em estar viva. Sempre que penso que não estou a respirar ou que vou morrer, olho para o meu sol, e ele ilumina-me.

Procurei um refúgio, para além da escrita, que me ajudou e continua a ajudar: a música. A música esteve sempre presente dos meus dias desde que nasci. Corre literalmente nas minhas veias. Está presente no meu apelido. A música ajudou-me em todos os aspetos possíveis. Enquanto estou a tocar, sinto-me uma pessoa normal. Sinto que posso tudo. Sinto-me livre. Consigo respirar, de novo. Quando pego nas minhas baquetas, sou a Rita normal. Enquanto estou a fazer as inúmeras contas que tenho de fazer, sinto a mente tão ocupada que me enche o coração de uma felicidade inexplicável. Portanto, o meu conselho é: procurem o vosso refúgio. Não desistam de vocês. Nunca. São apenas fases más. Não uma vida má.

Acreditem sempre, lutem. Haverá sempre alguém do vosso lado, a torcer por vocês. Eu estou contigo. Espalho a minha história para saberes que todos nós temos recaídas. Em todas elas, aprendemos algo. Se for preciso, conta a tua história também.

Eu, estou disposta a ouvi-la, e até mesmo ajudar, se conseguir. Juntos, se nos unirmos, conseguimos tornar um mundo melhor. Eu acredito nisso. Para terminar, quero agradecer. Agradecer ao suporte dado pela minha família, amigos e professores. Sem eles, não seria a pessoa forte que me considero hoje.

Obrigada.

“Faz o que puderes, com o que tiveres, onde estiveres” - Theodore Roosevelt

 

 

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