16 Fevereiro 2020      10:51

Está aqui

Dói

Dói - digo-te. Está a doer - aviso-te. Permaneces com o meu coração nas tuas mãos. Apertas com força. Pára, nada. Mas tu não te importas minimamente com isso. Continuas com as mesmas ações; aquelas que são inexistentes. Sei que odeias correr riscos; não poderás abrir uma exceção? Não gostas de caos, organizas tudo. Qual é o meu lugar? Nada fazes. Nada dizes. Tampouco praticas.

Eu não sou capaz de te mentir; tu és? Serias capaz de admitir todas as palavras que tens engolido? Oxalá não sufoques. Como saberei, então?

Quero alertar-te sobre o facto de que, todos nós, somente nos vimos verdadeiramente duas vezes: quando tiramos uma fotografia e ficamos a olhar para ela; e quando encaramos o espelho, fixando a nossa reflexão. Mas, e as riquezas mais bonitas? As propriedades mais significantes não as captamos, infelizmente, eu sinto muito por isso. Eu sinto muito. Ou nada. Não consegues ver a maneira como os teus olhos se iluminam quando falas de algo que amas e nunca poderás ver o quão exuberante ficas quando sorris.

É triste saber que nunca nos vemos verdadeiramente; nunca vemos o que realmente somos; nunca vemos as nossas melhores qualidades e desperdiçamos a maior parte da nossa vida a expor as nossas "imperfeições" (que nem sequer estão lá?).

Tornaram-se noites cansativas e intermináveis, e eu pude jurar que me tinha tornado inconsequente. Uma espécie de selvagem livre e inalcançável. Enganei-me.

Eram noites duras e violentas, e eu pude crer que me habituaria àquilo como se fosse normal. Mentira. Loucura é achar isto normal. Porque, ultimamente, não é o que me dizes que me tem abatido. É a maneira como o dizes.

Comprometi-me com a literatura. Desde quando é que as palavras começaram a ser tão frias e horríveis? Desde quando começaram a ser como punhais espetados no meu peito? Há quanto tempo as palavras - o estímulo para todas as vidas e para o mundo inteiro - começaram a ser utilizadas por pessoas medíocres? Que tal ação seja dada como um pecado mortal para os crentes, e uma causa de morte para os que não acreditam em nenhuma entidade superior; para os céticos.

Preciso de noites leves e claras. Preciso de perdão. Preciso de culpa. Preciso de esquecimento. Preciso da memória. Preciso da doença. Preciso da cura.  

Avisaram-me que algo estava errado. Ignorei. Gritei. Eu sempre soube que era errado. É errado e sempre foi. Mas quanto tempo demorei até entender que era errado? É difícil assumir a realidade desta forma, mas a aceitação é a chave para se ser realmente livre. Sei que te custa saber que não podemos fazer absolutamente nada, e porquê? Porque não temos capacidade para tal. Somos tão pequenos e insignificantes…

Como te posso explicar isto? Admito que podemos decidir como contar histórias (in)felizes. Mas eu escolho, simplesmente, suavizar a situação e dizer que nada é assim tão péssimo que não haja solução. Todos gostamos dessa versão. Tu gostas. Só que nada disto é genuíno...

 

Natural de Reguengos de Monsaraz, Beatriz Velez tem 17 anos e estuda Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Escritora desde os 13 anos, amante dos animais e da Natureza.

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