11 Julho 2020      15:26

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Dermatobia hominis

Lá vou eu buscar o nome latino para outra das minhas crónicas. Pois bem, assim foi de modo a não assustar o senhor leitor e até a deixar a sua curiosidade mais afinada.

A crónica de hoje é sobre uma mosca-varejeira. Chamava-se Moscato e não era vinho nem nada parecido. Moscato tinha um grave problema com um dos sete pecados capitais. Sofria de gula! Não passava um único dia em que a comida não lhe ocupasse a cabeça e os mil olhos. Moscato estava com 26 anos e tinha asas para voar. Voava para sítios longínquos. Tinha conhecido tantos cheiros. Era aliás, atraído por eles a toda a hora e a todo o momento. Moscato era pacato e não conhecia outra vida. Acabamos por ser aquilo a que nos moldamos. Moscato moldou-se a ser uma mosca varejeira sedenta de comida. Fresca, cozida, assada, frita, estragada, com cheio, insossa. Moscato era, além de um guloso, um procriador. Em cada comida que devorava, deixava a sua marca, mais conhecida por varejas. A sua semente ficava no lugar onde passava.

Repugnante ao ser humano, Moscato sentia-se tão triste e por nunca ser aceite numa comunidade, viajava de pouso em pouso, de casa em casa em busca de aceitação.

Numa dessas viagens, atingiu o seu Nirvana. Passou de ser desesperado em busca de comida, na Tailândia, para se tornar monge. Dias depois do acontecimento que vos contarei, Moscato viajou ao Tibete em busca de carne de yak. Estava faminto. A última coisa que tinha comido era uma sopa tailandesa e quase se tinha afogado. A cena aconteceu em Banguecoque num mercado de rua antes da COVID-19. Comida tinha fartura, desde o bom padthai até às larvas, gafanhotos, grilos, escorpiões e outros espécimens fritos. Nesse tempo, a vida corria bem ao Moscato, nesse tempo havia muitos turistas, imensa comida que se estragava, a sua favorita.

Porém, os tempos mudam e assim muda o nosso destino. O desta mosca-varejeira mudaria numa sopa Tom Yum Kung. A possibilidade de se afogar na sopa fez com que acordasse para a triste realidade. Não sabia o que fazer da sua vida. O perigo vivia ao seu lado, constantemente. No Tibete, Moscato, ao provar a carne de yak, viu a luz. Viu a luz e um mata-moscas. Conseguiu, por uma fração de segundo, escapar a um destino fatal.

A sua vida passou-lhe à frente dos seus muitos olhos... tornou-se inevitável o seu próximo passo. Tornar-se-ia vegan. Uma mosca varejeira vegan! Dedicou o resto da sua vida de mosca a meditar e praticar o bem. Ver o Nirvana para uma mosca é a diferença entre um mosquito e uma vespa. Moscato passou a ser feliz, ultrapassou o seu pecado e nunca mais tocou numa peça de carne. Para si, um coentro, uma alface, uma folha de couve ou um pedaço de erva passaram a ser sinónimo de satisfação.

Quem diria que comer uma sopa tailandesa podia mudar a vida de uma pessoa e até de uma Dermatobia hominis.

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