19 Junho 2016      09:53

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DE ESTÔMAGO CHEIO I

"TEXTURAS"

 

“_ O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquele nosso amigo Silvestre da Silva…

_ Ora, se conheci!... Como está ele?

_ Está bem: está enterrado há seis meses.”1

 

Morto de morte falecida, mais propriamente de caquexia, apesar de ir a banhos (de mar) na Póvoa de Varzim, que acabaram em banhos de chuva, assim finou Silvestre da Silva, folhetinista, poeta, filósofo, jornalista e político.

Contudo, não morreu porque “morrer” é um termo demasiado redutor. Na verdade, “metamorfoseou-se” e permaneceu, não só na natureza envolvente, como também na “papelada”, que deixou de herança ao autor para que fosse publicada, de modo a que pudesse, ao cabo da décima edição, amealhar dinheiro suficiente para pagar os credores. (E foi uma sorte não terem ficado com os manuscritos por acharem que eram letras de crédito!)

Os escritos deixados por Silvestre da Silva ao seu amigo (autor/editor) encontram-se divididos em três volumes distintos: Coração, de 1844 a 1854, época em que, o nosso amigo Silvestre se rege pelo referido órgão que o levou a fazer “tolice brava”; Cabeça, de 1855 a 1860, momento da sua vida em que decide ascender socialmente; Estômago, período mais intestino, viragem inevitável para os prazeres da vida.

Começando pelo fim, o autor “mata” logo o protagonista e evoca as circunstâncias da sua morte, referindo, desta forma, o motivo da transmissão da sua “papelada”. E temos então o pretexto ao surgimento desta novela e à publicação póstuma: o manuscrito.

É frequente na Literatura o uso desse truque, na medida em que possibilita um distanciamento do autor relativamente à sua obra e lhe permite, do mesmo modo, justificar a sua existência e conferir-lhe credibilidade, como em O Último Cabalista de Lisboa (Richard Zimler) ou em A Ode Eterna (Cláudio Sousa).

Recorrer a supostos manuscritos também permite que o narrador possa facilmente assumir uma posição mais crítica, dirigindo-se ao leitor e, se assim o entender, intervindo ao longo da obra. Um bom exemplo dessas intervenções, em Coração, Cabeça e Estômago, por ser uma das mais humorísticas, é o momento em que o autor se refere ao soneto que Silvestre escreveu antes de morrer: “Bem se vê que o soneto era o da morte. Um grande merecimento tem ele: é ser o último”.

Voltando ao preâmbulo, pode dizer-se que o mesmo assume, nesta obra, a função metalinguística de exposição da génese do manuscrito e narrador e autor surgem como sendo uma só e mesma entidade. De facto, o narrador (o que herda os textos e assume a primeira pessoa) assina como sendo “o autor” (Camilo Castelo Branco). De seguida, quando a obra propriamente dita inicia, é Silvestre da Silva, relatando a história da sua vida, que assume o papel de narrador autobiógrafo.

No entanto, a complexidade diegética da obra não se resume a estes dois narradores, em virtude de, na segunda parte da obra, surgir uma narradora, também autodiegética, Marcolina, que toma a palavra, contando, qual Sheherazade, a sua triste sorte. E tal configuração da diegese permite conferir à obra uma maior densidade, assentando numa sobreposição de camadas narrativas, que se entrelaçam em vários universos diegéticos.

 

Imagem daqui

1 Castelo Branco, Camilo, Coração, Cabeça e Estômago, Publicações Europa-América, 1988, Lisboa.

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