1 Setembro 2018      13:42

Está aqui

A consulta

Eram 6:15 da manhã e o dia ainda mal tinha acordado. Era cedo. Muito cedo. Tão cedo que o dia ainda não tinha acordado. Quem já tinha despertado e estava a caminho era a Maria. Lá ia ela, apanhar a camioneta que a levaria à vila. Tinha de descer o combro para, lá no vale, chegar à estrada de alcatrão e esperar pela camioneta das 6:30. A carreira passava todos os dias. Era uma daquelas camionetas grandes, da Rodoviária Nacional, sem ar condicionado e bancos desconfortáveis, mas Maria gostava da camioneta.

La ia descendo, pé ante pé, lenço na cabeça, meia grossa de lã até ao joelho e saiote. No braço direito, um cestinho de cana. Lá dentro, um naco de presunto, chouriço com a quantidade necessária de gordura, meio pão com cinco dias, meia garrafa de vinho feito pelo marido da Maria e uma faquinha. Qualquer alentejano que se preze anda com uma faquinha no bolso ou dentro do cestinho. A enrolar o farnel, um paninho bordado nos tempos livres que, com a idade da Maria já eram muitos…

Descia a encosta, a terra batida, pé ante pé. A camioneta vinha lá atrás do monte e ela estava quase a chegar. Havia de esperar pouco tempo. Não convinha esperar muito. Estava frio e a geada cobria aquele vale todo. Nada comparado com o quentinho da casa onde a lareira aquecia as divisões, fumava os chouriços e deixava um cheiro a fumo pela casa toda. Até na roupa da Maria que tinha estado um belo bocado a olhar para as brasas e para as chamas.

Já estava na paragem e a camioneta também estava a aproximar-se a pneus largos. Na paragem estava também a Ti Antónia. Companheira de muitas viagens de Maria a caminho da vila. Ao lado das duas, a guardá-las, um canito de cada lado. Dois rafeiros. Ciosos das suas donas sabiam que só as acompanhavam até ali. Mal elas pusessem os seus pezinhos dentro da carreira era hora de ficarem a olhar uns 15 minutos para a carreira a abalar, a carreira a desaparecer, a estrada vazia. Alguns dias ainda corriam uns metros atrás da camioneta. Hoje, não fizeram isso. Ficaram sentados a coçar as pulgas e depois lá foram, cada um para o seu monte. Antónia morava dois cerros abaixo de Maria.

Iam à vila para ir à consulta. Isso já se sabia. Era sempre o motivo que as levava à missa. Isso ou ir à feira. Nesses dias iam acompanhadas dos maridos. À consulta, normalmente iam sozinhas. Desde que o Dr. Antunes tinha ido embora que andavam uns meses com um médico, outros meses com outro… e ninguém lhes sabia dar nome à sua maleita. Era a idade. Seria o tempo. Fosse o que fosse, caía a brandura e as artroses, a doença, o colesterol, os triglicéridos e a tensão alta. No fundo era tudo e nada. Ambas sabiam mas lá andavam, em análises e em exames, ecografias e urina. Tudo e nada.

Maria e Antónia, além de mostrar as análises ao Doutor, que agora era cubano. Não percebiam muito de espanhol as duas, nem o médico de português mas lá se iam entendendo com a ajuda da enfermeira que percebia o portunhol do médico e o alentejano das senhoras. Chegaram à vila às 10 para as 8 e o centro de saúde ficaria ao virar da esquina. Na sala de espera já lá estavam sentadas tantas outras Marias e tantas Antónias. Toda a gente com o mesmo problema, ou outros problemas mas com o mesmo propósito. Mostrar as análises aos médicos, aviar as receitas e voltar ao monte. O farnel lá estava, no cesto de cana, guardado, à espera do fim da consulta, do avio dos comprimidos e do banco da praça central até que fossem horas de apanhar a camioneta do meio-dia. À frente delas havia umas 6 ou 7 pessoas. Lá pelas 10:30, a primeira foi chamada e saiu ao fim de 15 minutos. Vinha pouco animada com aquilo que foi dito, embora fosse aquilo que já sabia. A segunda, atendida de seguida, veio com o mesmo semblante.

Impressas as receitas, lá foram para a farmácia. Papéis numa mão, cestinha na outra. Aviaram tudo e lá partiram para o jardim. No cestinho levavam agora o saco com os comprimidos, mais o colesterol, o presunto, os triglicéridos, o chouriço, a tensão alta, o tomate com sal, o fígado, a garrafinha de vinho, a gordura e o pão de cinco dias.

Acabado o lanche puseram o que sobrou, enrolado no pano, no cesto de cana e lá foram para a estação. Ao meio-dia saiu a carreira e quarenta minutos depois, lá estavam os dois rafeiros à espera delas, que nem dois cronómetros a abanar o rabo. Subiram o monte não sem antes se despedirem até daí a 15 dias.    

 

 

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