2 Janeiro 2020      08:55

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Bonecos de Santo Aleixo, um tesouro da cultura tradicional alentejana

Os Bonecos de Santo Aleixo, repletos de uma identidade colectiva única, representam uma inestimável forma de arte comunitária do Alentejo profundo. Um legado vivo de tradições e costumes seculares, que nos levam ao que de mais tradicional e espontâneo existe no Alentejo.

Nas Memorias de Vila Viçosa, refere o Padre Joaquim da Rosa Espanca, que já no século XVIII há registos onde consta ter sido apreendido e mandado queimar títeres de Santo Aleixo, em 1798 (Museu da Marioneta). Tal como acontece em alguns países do Norte da Europa e em particular no Sul de Itália, são manipulados por cima e de pequena dimensão.

Três décadas foi a margem temporal em que os Bonecos de Santo Aleixo pertenceram à família Talhinhas, sendo posteriormente (1967) revelados à sociedade em geral por Michel Giacometti e Henrique Delgado. Todavia, durante os anos 80, sensível ao seu potencial e consciente do seu valor patrimonial, o CENDREV (Centro Dramático de Évora) adquiriu todo o espólio ao mestre António Talhinhas, responsabilizando-se assim pela sua restauração e conservação. E diga-se, a sua essência tem sido mantida de forma exemplar tal como refere José Russo em entrevista ao Jornal Público (2017), “Ao longo de várias décadas, os bonecos têm tido as mesmas falas, atitudes e feitios: O espetáculo funciona tal e qual como é. O que é bom é mantermos isto como está. Continua a ter uma atualidade e uma eficácia completamente surpreendentes”.

Há algo de extraordinário quando o pano corre e sentimos aquelas pequenas figuras a ganhar vida, a fazer-nos rir, como se de “gente grande” se tratasse. As suas vozes ecoam pelas salas, revelando-se como verdadeira extensão de quem as manipula. A forma como ganham alma é incrivelmente aliciante. Costa e Baganha (1989) afirmam que “embora sendo um objeto inanimado, torna-se alguém. É esta a grande ilusão que o fantoche provoca, quer naquele que o manipula, quer naquele que o vê viver “. Dos falares e expressões tradicionais, ao cante e música, na simplicidade de cada espectáculo, encontramos no diálogo das suas personagens um repertório singular e genuíno, originário do vasto património textual alentejano de transmissão oral (Lima, 2004).  Com grande parte do seu conteúdo de índole religioso, como exemplo o “Auto do Nascimento do Menino” e o “Auto da Criação do Mundo”, cada peça reveste-se de um espetáculo único e intemporal que com o seu dialeto alentejano puro encanta miúdos e graúdos.

A sua dimensão ultrapassa hoje o espaço nacional, sendo que os seus espetáculos estiveram já em vários certames internacionais como o México, Brasil, Rússia, Macau, China, índia, Tailândia, entre outros, aos quais o seu público teve oportunidade de apreciar a sua riqueza e beleza cultural.

Para a sua salvaguarda importa maior sensibilização e abordagem documental ao seu legado. Através de variadas iniciativas, estimular não só a sua continuidade como o próprio “ofício”. Uma vez mais, poder local, escola e comunidade são imprescindíveis para o seu futuro. Nos seus cenários de pinturas em cartão, onde personagens como o Padre Chancas e o Mestre Salas, iluminados por candeias de azeite, são a alma de um povo, da sua identidade, é responsabilidade de todos zelar por uma das mais importantes formas de expressão artística da Região.

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