2 Janeiro 2026      10:46

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Balanços

O ano de 2025 chega ao fim e, como é inevitável, impõe-se o exercício do balanço, não apenas do que passou, mas também do que o ano vindouro poderá trazer.

No plano internacional, 2025 começou com a tomada de posse de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. Na minha perspetiva, este segundo mandato revela-se mais perigoso do que o primeiro. Mais perigoso porque Trump já não é um outsider: traz consigo a experiência acumulada do seu primeiro mandato e, sobretudo, o apoio explícito do poder económico e, por consequência, político das grandes empresas tecnológicas. Esse alinhamento ficou evidente logo nos primeiros dias, num verdadeiro beija-mão protagonizado pelos CEOs da Meta, da X, da Amazon e da Google.

É particularmente irónico que muitos destes líderes empresariais tenham fundado as suas empresas com o discurso da união, da partilha e da conexão global da humanidade, para hoje se aliarem, não apenas por receio de represálias, mas também por claros ganhos económicos e regulatórios a um homem que representa a antítese desses valores. Ainda que Trump utilize estas plataformas de forma exímia a seu favor, o projeto político que encarna contrasta profundamente com o ideal que esteve na origem dessas mesmas empresas.

As perspetivas para o próximo ano não são animadoras. Tudo indica que uma parte significativa da sociedade americana voltará a olhar para o futuro através de um prisma isolacionista, inspirado numa reinterpretação da Doutrina Monroe segundo a qual as Américas voltam a ser encaradas como o “quintal” estratégico dos Estados Unidos. A Venezuela surge como o primeiro alvo desta lógica, não por qualquer impulso benevolente ou democrático, mas sobretudo pelos seus vastos recursos naturais, nomeadamente o petróleo, cuja reserva é a maior do mundo. O próprio Trump já admitiu, sem grande pudor, que os interesses em jogo são essencialmente económicos.

Deste lado do Atlântico, a Europa parece navegar sem capitão. A posição errática e ambígua em relação ao genocídio perpetrado por Israel em Gaza, bem como a incapacidade de afirmar uma voz própria e relevante na procura de uma solução de paz para a guerra na Ucrânia, revelam uma União Europeia que continua a reagir mais do que a agir. Num mundo onde as autocracias crescem a um ritmo preocupante, esta ausência de liderança torna-se ainda mais evidente.

O próximo ano poderá ser decisivo para o futuro do projeto europeu. A aproximação das eleições presidenciais francesas, previstas para o segundo trimestre de 2027, lança uma sombra inquietante sobre a estabilidade da União. Os cenários que se desenham são preocupantes: a extrema-direita francesa parece partir em clara vantagem e, caso venha a vencer, o próprio projeto europeu ficará seriamente ameaçado. É por isso que 2026 terá de ser um ano de afirmação política, de visão estratégica e de projeção de futuro para um continente que conhece demasiado bem os riscos da fragmentação e do nacionalismo exacerbado.

Portugal encontra-se, inevitavelmente, entre estes dois mundos. A nossa economia é frágil, o nosso peso político é limitado e a nossa margem de manobra reduzida. Num contexto de instabilidade geopolítica global, qualquer abalo mais profundo no tabuleiro internacional terá impactos diretos no país, mesmo que a situação económica interna, à primeira vista, pareça seguir um caminho relativamente estável.

Tradicionalmente, a chegada de um novo ano carrega consigo a promessa de mudança, de renovação e de melhoria. No entanto, essa mudança não acontece por inércia nem por desejo. Exige escolhas claras, coragem política e uma cidadania informada e exigente. O futuro, seja da Europa, seja de países como Portugal, dependerá tanto das circunstâncias externas como internas sendo necessária uma capacidade coletiva de reconhecer os perigos, aprender com o passado e agir antes que as decisões deixem de estar nas nossas mãos.