21 Setembro 2017      10:45

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AINDA RESTAM CRAVOS PARA PLANTAR?

No ano em que comemoramos 43 anos sob a revolução de Abril de 74, na qual foi implementado o atual modelo de regime democrático em que vivemos, deve-se destacar a conquista do Poder Local pela efetiva possibilidade de participação das populações nas variadas tomadas de decisão, designadamente, a nível dos órgãos autárquicos.

Mas, decorrido todo este trajeto de consolidação do regime sob a égide da “Liberdade”, fará ainda algum sentido, refletir acerca dos limites deontológicos dessa mesma “Liberdade” de pensamento e de expressão? Será que de facto, ainda restam alguns cravos para plantar no quintal?

Com o aproximar do sufrágio para um novo ciclo autárquico, a decorrer no próximo dia 1 de Outubro, nada será melhor para ilustrar o meu raciocínio do que um exemplo muito pragmático e concreto.

Imaginem um local, no nosso Alentejo, onde o desemprego atinge cerca de 15% da população residente entre os 15 e os 64 anos, onde existem 157 idosos por cada 100 jovens e, onde, entre 2001 e 2011, se perdeu perto de 20% dos habitantes. Este, infelizmente, é o retrato de um território com poucas perspetivas de futuro, mas pior, num plano mais alargado, é um território com medo.

Este último elemento castrador e omnipresente, estende-se ainda mais, quando uma fatia considerável da população beneficia, neste local, de transferências sociais (incluindo pensões) mas, mesmo com estas transferências, temos que notar que existiam cerca de 400 pessoas, em 2015, que viviam com menos de 360€ por mês, ou seja, no limiar da pobreza.

Fica, em linhas gerais, explanado aquilo que temos na demonstração do exemplo que utilizei: uma região pobre, onde o emprego escasseia e onde, a única entidade filantrópica, em atos de desmedida generosidade, é a própria Autarquia, através da sua latente função corretiva na base da economia local.

No local de que vos falo, esperava-se que o enchimento da Barragem de Alqueva pudesse ter trazido um conjunto de externalidades favoráveis, desde logo com a capacidade de negociação para a manutenção das unidades industriais que ali existiam e que empregavam centenas de trabalhadores. Eram esperados mais incentivos e colaboração com algumas destas unidades fabris que pretendiam permanecer neste local, mas que encontraram na vontade politica uma barreira ignominiosa. Esperava-se, por fim, a habilidade de exigir, com maior contundência, a ampliação do perímetro de rega a toda a região, reforçando o potencial deste território a nível da capacidade agrícola instalada. Porém, nada disto, passou de uma grotesca encenação ilusória.

Este local merecia mais. Os seus habitantes exigiam e pediam mais. Agora, é aceitável dizer que, de facto, era necessária gente ponderada, séria e transparente, que fundamentasse e explicasse as suas decisões, mas, ao longo dos últimos anos foi precisamente o contrário aquilo que sucedeu. Foi a falência do sistema, a degradação da qualidade de vida e a estagnação do desenvolvimento local, tudo em nome de um progresso orientado para as prioridades erradas e assente numa gestão autárquica de populismo desenfreado. Isto é, primeiro gasta-se, depois procura-se como pagar.

Tudo isto leva a crer, que ter comprometido as gerações futuras, nunca interessou, porque, de qualquer dos modos, os cidadãos é que serão sempre os responsáveis pela despesa criada, arcando com a fatura. Participar nas decisões não pode ser apenas mais um voto na urna, não pode implicar transferir tudo o que fora prometido para mãos alheias e ponto final. É preciso discutir, discutir todos os dias e relembrarmo-nos para quem se governa: os tais cidadãos.

Assim, e respondendo à questão que fiz inicialmente nesta narrativa, a verdade é que eu, ainda acredito que há cravos que se podem plantar, que é possível não recear as decisões que parecem querer condenar algumas pessoas e alguns locais a uma vida de dificuldades, e que é possível que surjam medidas alternativas, que invertam a tendência de desertificação e empobrecimento dos últimos anos. É tempo de abandonar o medo e deixar a luz entrar. É tempo de terminar com os esforços na manutenção da ignorância e dos medos. Que floresçam novos cravos neste quintal!

Imagem de capa de revistagloborural.globo.com

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