11 Novembro 2025      14:37

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Ainda não chegaram os elefantes, mas muitos ficaram de trombas

Foi recentemente anunciado o projeto relativo ao Santuário de Elefantes, que está a ser desenvolvido nos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal. O intuito desta iniciativa é acolher os elefantes que se encontram dispersos pelo espaço europeu, na fase final de vida, provenientes de antigos jardins zoológicos e circos.

O fim é nobre e propõe-se dar a estes animais a dignidade possível, depois de décadas em que serviram de entretenimento e de fruição, nos lugares mencionados. Porém, em Portugal, olhamos sempre com desdém para ideias que vão para “além da caixa”. Apesar das razões e explicações, levantam-se imediatamente as mais infundadas suspeitas sobre os propósitos, os meios, os fins, os intervenientes e os interesses em causa.

As redes sociais vieram dar voz a muitos “velhos do Restelo” que, ao invés de verem aqui uma oportunidade, um sinal de progresso e uma louvável missão, colocam em causa as razões que estiveram na origem daquilo que se pretende criar. Talvez o desconhecimento gere desconforto ou desconfiança, mas penso que todos os esclarecimentos que foram dados dissipam as dúvidas entretanto surgidas.

Trata-se de um projeto promovido por uma associação com fins de proteção ambiental, que tem por objetivo preservar esta espécie animal em particular e que tem desenvolvido, ao longo dos anos e em diferentes continentes, várias ações para proteger  e dar melhores condições de vida aos elefantes que se encontram em cativeiro. Estima-se que haja cerca de 600, um pouco por toda a Europa.

No Alentejo e mais propriamente em Vila Viçosa e no Alandroal, encontrou a Pangea o habitat ideal para que estes animais possam disfrutar do tempo que lhes resta de vida, com tranquilidade e em equilíbrio com a natureza. A Instituição em causa tem por isso este propósito e funciona graças à boa vontade de mecenas e patrocinadores, que seguem os mesmos objetivos e partilham os mesmos propósitos – preservar a vida animal.

Trata-se, portanto, de um projeto privado, que ao contrário do que alguns opinam, não usufrui de fundos municipais para poder evoluir, nem tampouco de apoios financeiros das autarquias para o desenvolvimento das atividades que já estão a decorrer. Trabalham sobretudo com subvenções e doações de organismos privados, que estão envolvidos e motivados com estas causas.

Podemos obviamente opinar sobre esta matéria, mas cada um utiliza os capitais financeiros que tem disponíveis, de acordo com as suas próprias motivações e convicções. Considero que não nos cabe esse julgamento. Podia ser esse dinheiro utilizado para outros fins, filantrópicos ou de caridade? Serão menos válidos os esforços e o empenho para a causa animal? Cada um terá a sua opinião.

O que é certo é que temos assistido a uma panóplia de argumentos para diminuir a importância deste projeto. Fala-se na questão da segurança (que não menosprezo e que acho que tem relevância, merecendo discussão), quer a nível da eventual caça furtiva, das condições sanitárias, da qualidade das águas, ou das próprias populações, sendo que todas essas questões estão devidamente inscritas no planeamento que está a ser seguido, segundo sei. Não creio que haja risco em termos de possíveis doenças de origem tropical, conforme também já foi trazido à baila, como se costuma dizer.

Talvez a questão que estivesse aqui pendente fosse decorrente do enquadramento legal deste projeto. Não existiria na nossa legislação matéria que equacionasse a criação de um santuário de elefantes no nosso território, mas aparentemente a equiparação a um parque zoológico resolve o problema. Também não creio que o nosso montado alentejano fique gravemente afetado com a presença dos trinta ou quarenta elefantes que previsivelmente irão ser aqui acolhidos, conforme também já ventilado.

Sei que se trata de um projeto arrojado, inovador e com uma certa dose de imprevisibilidade, mas penso que é justo dar o benefício da dúvida a quem decidiu arriscar em nome desta causa.

Não sei se irá correr bem ou não, nem como será o futuro daqui a trinta anos, se haverá muitos ou pouco elefantes por estas paragens, mas devemos pensar naquilo que de positivo está inscrito neste desafio, até pelo impacto que o santuário pode ter na região, nomeadamente em termos da projeção de ambos os concelhos a nível global, como exemplo de boas práticas ambientais e da defesa das espécies.

Também aí podemos ser inovadores. O Alentejo e os elefantes, quem diria?! Afinal, ao que parece, os paquidermes ou os seus antepassados já por aqui andaram, há 30 000 anos…