14 Março 2018      14:00

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A água não se esgota no debate, esgota-se na torneira

Há coisa de um mês, presenciámos um enorme feito da humanidade, a SpaceX lançou para o espaço um foguetão gigante, seguro, confiável e, acima de tudo, reaproveitável, que colocou em órbita um Tesla Roadster. Embora, ao volante do carro seguisse apenas um boneco vestido de astronauta, o mundo pôde assistir em direto às imagens mais fascinantes que um condutor pode ter do Planeta Azul.

Apesar, das magníficas imagens captadas exibirem um “Planeta de Água”, com cerca de 70% da sua superfície coberta por oceanos, somente, apenas 2,5% correspondem a água doce e, dessa escassa parte, 70% permanecem sob a forma de gelo e neve. O que, desde logo, torna evidente que só uma ínfima parte da água doce existente está disponível para suportar e sustentar toda a vida do planeta, incluindo os mais de 7,6 mil milhões de seres humanos que nele coabitam.

Se, a este contexto de escassez, associarmos as implicações provocadas pelas alterações climáticas, facilmente se verifica que a relação da humanidade com a água se modificou. Aliás, estima-se que em 2025 cerca de um terço da população mundial venha a enfrentar sérios problemas com o abastecimento de água e que em 2040 uma em cada quatro crianças vai estar em risco devido à falta de água. Assim, se compreende o conjunto de preocupações, atuais, centradas no uso e gestão eficiente dos recursos hídricos.

Com efeito e a propósito de debater esta problemática, decorreu na semana passada, em Évora, o 14ª Congresso da Água que, justamente, elegeu os novos desafios na gestão dos recursos hídricos como tema central do encontro.

O fórum, organizado pela Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos (APRH), associação que reúne a comunidade científica e diversos especialistas nesta matéria há mais de 40 anos, abordou, fundamentalmente, a perspectiva de escassez de água que ocorre periodicamente em território nacional, bem como analisou as dificuldades sentidas pelas entidades nacionais e pelos operadores do sector da água na gestão da seca.

Neste particular, foram apresentadas e debatidas várias medidas que concorrem para a resolução ou mitigação das situações de vulnerabilidade identificadas, bem como, para a diminuição dos aspetos que incrementam a conflitualidade, procurando simultaneamente atender às carências de modo conciliar a compatibilidade entre os diversos usos da água.

Obviamente, que o plano de discussão remeteu para decisões críticas no âmbito do desenvolvimento sustentável e da função ecológica da água. Daí, a maior relevância atribuída aos aspectos associados quer ao nível da quantidade quer ao nível da qualidade das massas de água. Porém, enquanto o interesse económico prevalecer, Portugal corre um enorme risco de promover a deterioração da qualidade da água e dos ecossistemas aquáticos e em última análise degradação das componentes ambiental e social.

Por outro lado, o acesso à água é indispensável para usufruir do direito à vida. Todos os anos, mundialmente, morrem milhões de crianças com menos de cinco anos por doenças relacionadas com a falta de acesso a água potável e saneamento. Por isso, em 2010, a Assembleia Geral das Nações Unidas tratou de reconhecer o acesso a água potável e saneamento como um direito humano fundamental.

Atualmente, como se referiu, a água é encarada como um direito universal e não como uma mera mercadoria, devemos, por isso, estar atentos e agir oportunamente para que o estado português não ceda à tentação de privatizar (ainda mais) este sector.

Não obstante a profundidade dos artigos científicos apresentados e dos progressos alcançados, quem, como eu, participa regularmente nestes encontros, fica com a ideia clara que a água não se esgota no debate, esgota-se na torneira.

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