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A vida

A vida é um pedaço de terreno abandonado que não sabe bem a quem pertence e não tem marcos. A vida transforma-se num lamaçal quando chove e em terreno ardente nos dias de mais calor. Não contemplemos tanto os efeitos nefastos dos dias em que nos corre menos bem, mas optemos por torná-la vívida e alegre, naqueles dias em que o terreno nem é um lamaçal nem se encontra em chamas.

O lencinho

Assoava-se com ele. Tinha um lencinho que andava sempre no bolso. O lencinho era todo branco e tinha, num dos cantos, uma letra gravada. A letra A estava gravada em tons de azul, como gostava a dona do lencinho. Não é comum haver uma relação tão íntima entre um lenço e a sua dona, mas esta era. Tão próximos eram a dona e o seu lenço que a primeira dormia com o segundo e só se separava dele quando o punha a lavar. Isso acontece com regular frequência. Aconteceu assim, durante tempos e tempos seguidos, até ao último dia antes do desaparecimento do lencinho.

OPORTUNIDADES

Coisa que não faltava eram oportunidades. Coisa que perdurava no tempo e era falada nos corredores eram oportunidades. Oportunidades de mudar de vida, oportunidades de emprego, oportunidades de carreira, oportunidades de não fazer nada, janela de oportunidades. Tantas, tantas.

COTONETES

A vida não era a mesma coisa sem cotonetes. Aqueles pauzinhos de plástico ou madeira, cobertos de algodão nas pontas são e sempre serão imprescindíveis. Esta é uma teoria minha que ando a desenvolver há algum tempo e passo a explicar porquê e como me ocorreu. Primeiro, segredam-nos ao ouvido coisas maravilhosas. Fazem-nos tremer quando nos contam algo mais aterrorizador ou nos fazem cócegas nos ouvidos. São os cotonetes. Numa palavra só. Cotonete.

ESFEROVITE

Certo dia, uma recém-deslocada empresa do sector de escritório para o Brasil, decidiu pôr o seu recém-chegado empregado de encomendas, Pedro, português a reabastecer o armazém. Não era longa a lista, mas não foi fácil a execução da tarefa. A encomenda devia ser feita com a central de abastecimento do Maranhão e Pedro era um homem destemido nas suas tarefas, cumpridor, rápido e eficaz. Não era nada complicado, pensou. E assim não foi.

NUVENS

Andava com a cabeça nelas. Todos os dias. De um lado para o outro, a pensar nas nuvens. No meio delas, uma almofada fofa e onde se pode descansar. Era de descanso que precisava e nelas gostava de passar o tempo. Nas nuvens. Cabeça nas nuvens. Andava a divagar por elas quando saía de casa e caminhava nas ruas. Sentia-se o ar compactado.

PLANOS

Não faças planos. Não te maces a marcar coisas que certamente terão um final inusitado e não serão consequentes no seu final. Não faças planos. Não almejes alcançar o que não é para ti. Não tentes esticar a perna além do lençol nem compres um par de calças que te fiquem à meia canela, só porque a tua ideia desmedida te leva a impulsos que não consegues controlar. Não faças planos.

ALARMISMOS

No mundo atual, em que nada parece ser tão próximo de uma realidade virtual, imaginada por um criador de ficção científica, há núcleos ainda onde tal passa despercebido. Um desses sítios, desconhecido da esmagadora maioria de todos vós. Quase todos, se não todos, nunca ouviram falar da terra de que vos vou falar hoje. Chama-se Monte Novo dos Alarmes.

ESTRUTURA

Não fazia mal. Não faz mal. As coisas arranjam-se e resolvem-se por si próprias. Palavras de alento que lhe diziam para sossegar a pobre alma que se consumia num quarto escuro, pensando no que fora e no que era e no que poderia ser. Aventava uma série de hipóteses e nenhuma fazia sentido ou a soma de todas as hipóteses acabava por nunca dar certo. Nem aldrabando o meio, mantendo o resultado correto, não chegava lá. A pobre alma, continuava a ofegar, na sala escura. Projetava-se esta imagem no ecrã atrás da pessoa quem falava.

NÓMADA

O som do aspirador dissipava-se, com a distância. O som da água que corria num riacho longínquo tornava-se cada vez mais efémero e desaparecia ela também. Pedro voltava a si e ao comboio onde estava. A carruagem era tão antiga que os bancos eram em madeira já percorrida pelas traças. Nem o envernizado dos bancos as impossibilitara de viajarem também naquela carruagem. Pedro abria os olhos lentamente para observar, pela janela, o rio que o acompanhava e ao comboio que se deslizava, empurrado pela força do vapor.

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