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Caspa

Todo o dia. A todas as horas. A todo o momento. Caspa. Kasparov, o famoso jogador de xadrez, sofria de caspa e isso era uma enorme maçada que impedia um xeque-mate perfeito. Na sua vida de campeão, aquela neve branca que se lhe assentava sobre os ombros, tornava-se num peão que não andava muito. Kasparov havia de se habituar, mas já tinha perdido uns jogos à conta disso. Os tabuleiros pareciam a Guerra dos Tronos e, da cabeça do jogador, caía a neve e o Inverno estava a chegar.

O piolho aventureiro

Baseado em história verídica, este texto não aconteceu mesmo. Começa, como todas as boas histórias com um era uma vez. Neste caso era um piolho.

O piolho, ao qual me afeiçoei, e isto só partilho convosco, chamava-se Lhinho, diminutivo de Piolhinho. Era uma coisa carinhosa. Creio que aquilo que mais me despertou a atenção foi o facto de o piolho a quem nos dedicamos ser detestado por toda uma comunidade humana.

X - Outro lugar

Tanto Amaro como Linda ficaram mais uns dias naquela paz e, no dia em que tiveram de partir, despediram-se com um sentimento de vazio. Linda não estava já em si. Linda já tinha chegado a 80% do lugar onde estaria, no lugar onde ficaria. Esse lugar era um lugar feio, vazio, onde ninguém queria estar. Amaro sabia onde a mulher ficaria, conhecia bem esse lugar vazio.

IX Koh Mak - Tailândia

O destino seguinte dos dois não estava definido. A decisão, como muitas no passado, tinha sido feita em comum acordo e decidiram os dois que aquela era a melhor opção. A mulher de Amaro tinha pedido expressamente que fossem ambos para um lugar escondido, com o menor número de pessoas possível. Na fase em que se encontrava, apenas o silêncio a ajudaria a aguentar o peso que sobre a sua cabeça se acumulava. A mulher de Amaro, Linda, tinha consciência do seu estado e sabia o que lhe estava reservado.

VIII. Hong Kong

A cidade é fantástica. Os prédios são enormes e estão aglomerados uns em cima dos outros. As ruas, no centro, são tão estreitas nos bairros antigos que nelas quase não entra o sol. Há sempre uma azáfama. Desde Causeway Bay até Kowloon, Hong Kong é cheio de variedade. Os cheiros da comida, os aquários com precisa prontos a comer e o mar ao fundo. Atrás, a montanha verde e a China. Hong Kong e Macau são, por tão diversas razões, regiões especiais.

VII. O princípio do desfecho

Na casa da ex-mulher de Amaro, os investigadores não encontraram nada relevante, que pudesse indiciar o que terá acontecido, o motivo do seu desaparecimento. Mentimos, embora não tivessem encontrado nenhuma pista evidente do desaparecimento da senhora, faltava na casa, uma mala, algumas roupas e o perfume preferido da desaparecida, notou um dos filhos. Evidentemente, poderia ter sido uma estratégia para encobrir o crime, se tivesse havido crime. Só podia ser isso, pensaram os investigadores. Na cabeça dos filhos havia ainda a dúvida. O pai não poderia ter feito aquilo.

VI. A chegada a Lisboa e passos seguintes

Chegaram a Lisboa num dos voos matinais, vindos do Médio Oriente. O avião vinha cheio naquele dia. Ambos viajavam com muito pouca bagagem. Além da roupa mais ou menos formal que usavam, nada havia a assinalar que causasse espanto naqueles dois viajantes insuspeitos. Traziam, todavia, os pertences do falecido.

V. A investigação

Na esquadra, os dois investigadores começaram a juntar as peças do puzzle. O caminho que tal investigação seguiria ainda não era muito claro. Aparentemente não havia sinal de crime, aparentemente, a vítima morrera sozinha, no meio daquela rua, sem que essa morte fosse causada por terceiros. Após os dias em coma, vivendo imagens num subconsciente que nunca poderia reportar, os órgãos vitais do falecido decidiram parar e as máquinas que os mantinham foram desligadas. Não foi o primeiro caso, não será o último.

IV. O dia seguinte

O dia seguinte à morte de Amaro amanheceu menos frio do que os dias anteriores. A neve e o gelo que se instalara naquela cidade começou a desaparecer. Tal como o calor do corpo de Amaro que se diluiu com o seu último sopro, as ruas também se começaram a libertar do fogo fátuo.

III. O outro lado da porta

Amaro fez a barba com uma máquina usada e enferrujada que usava uma vez por semana. Os pelos tinham-se tornado demasiado resistentes àquela velha máquina. Deixou-lhe a cara marcada de feridas e áreas em que os pelos teimaram em ficar. Ficaria um pouco melhor do que aquilo que estava antes. Pousou a máquina em cima do lavatório e não mais se lembrou dela. Amaro tivera sempre uma relação sempre complicada com a casa de banho. Apesar de ser o sítio em que estava na intimidade consigo mesmo, em que deixava sair a imensidão de dores e a imundice.

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