22 Junho 2019      11:06

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As palavras que as pessoas não disseram quando a chuva veio e estragou o penteado da senhora

Era sábado e o dia tinha começado com o nascer do sol, como sempre. A pessoa que será o centro da nossa história estava fora de casa, apanhando um pouco de sol. Admirava as plantas que tinha semeado ela própria, passava o resto do protetor solar e não lamentava viver sozinha. Joana sabia o que lhe tinha custado chegar onde chegou a meios próprios. Ninguém tinha ideia do que custaria chegar àquele ponto. A mulher mais rica da aldeia toda. Só a casa principal tinha uns 20 quartos e uma empregadagem de 10 serventes. Joana tinha criado um império e era solteira. Vivia sozinha e não se importava, nunca tinha tido filhos nem tinha pena de não ter cumprido um dos requisitos biológicos enquanto mulher.

Joana amava tudo o que tinha construído e essa era a sua família. A outra, a original, tinha deixado de ter conhecimento há muito tempo e nem lhe importava porque para si, a única coisa que contava era a sua própria vida e o seu império.

Deixem que vos conte sobre Joana, cujo nome original era Joana Maria Cristiana de Albuquerque Freitas Almeida Pereira de Oliveira Mosqueiro. Nascida em família nobre, afastou-se por razões pessoais que só a ela interessam e situou-se naquele pequeno aglomerado de pessoas chamado aldeia.

Toda a gente a respeitava, toda a gente sabia que a Senhora Joana dava emprego a toda a aldeia. A sua fortuna fora criada por iniciativa própria, contra a família e porque esta mulher sabia que o dinheiro vinha da bondade e das coisas que se construíam em passos certos.

Joana, porém, tinha um fetiche... adorava chapéus... todos os dias usava um diferente. Todos os dias recriava um novo visual e ninguém reparava.

Naquele mês de junho, as contas estavam difíceis de pagar e Joana não sabia como arranjar dinheiro. Disse ao seu encarregado que não conseguiria pagar os salários e ele, pesaroso, transmitiu a informação a todos.

A fúria e a revolta foram enormes e Joana não conseguiria nunca responder. Era impossível resolver o problema. A única coisa que podia fazer era colocar o seu melhor chapéu e ir apanhar sol. Não valia a pena chorar. Os empregados não pensavam o mesmo.

Naquele dia choveu. Choveu tanto que a arca de Noé se envergonharia de estar tão seca. Os serventes todos sabiam. E todos sabiam que a senhora, Joana, se sentaria cá fora a apanhar sol e não tinha telemóveis para ver a meteorologia.

Olharam, escondidos, nas esquinas laterais e deixaram-na sentar. Ao sol, tão lindo... sem que visse as nuvens que se escondiam. Joana apanhava sol e os serventes esperavam. A chuva veio torrencial e destruiu a pintura, a roupa e o chapéu da pobre mulher cujo pecado capital foi agarrar-se aos seus bens materiais sem pensar nos outros. Os empregados todos riram... talvez se tenham sentido vingados, embora não os levasse a lado nenhum aquela vingança miudinha.

Joana nunca mais se sentou ao Sol, ou à chuva, e a lição que aprendeu foi a de que as pessoas estão à frente dos bens materiais. No mês seguinte, todos os empregados receberam a dobrar. Bem, pelo menos os que não se despediram no dia da chuva.

Quanto a Joana, o seu império continuou a crescer, agora sem chapéus e com um telemóvel novo, ainda sozinha, vá se lá saber porquê...

 

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